VOTO IMPRESSO PARA ANALFABETOS

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(e amantes de fake-news )

TEXTO LUIS BOGO

Antes que o leitor proteste, quero esclarecer que os analfabetos referidos no título deste artigo não são aquelas pessoas que, por alguma enfermidade ou desventura socioeconômica não puderam aprender a ler. Refiro-me aqui ao analfabeto cultural, ao sujeito que apesar de ter recebido instrução formal não desenvolveu a capacidade de processar as informações recebidas. Refiro-me ao infeliz que não se preocupa em checar a fonte de onde brotam as notícias e que, portanto, não é capaz de interpretá-las e contextualizá-las sob as luzes do bom senso e da verdade.

            Mais uma vez, faço questão de deixar claro que não me refiro ao cidadão analfabeto que, igual a todo cidadão de bem, honra seus impostos, taxas municipais, estaduais e federais e, assim, tem todo o direito de votar de acordo com a sua consciência, digitando solertemente, os números de seus candidatos numa urna eletrônica, por ocasião do pleito.

            Resolvi tocar neste assunto porque neste fim de semana pipocaram em algumas cidades do país, inclusive aqui na nossa região, algumas manifestações anacrônicas, esdrúxulas e bizarras em favor da volta do voto impresso nas eleições. Seria um retrocesso inadmissível ao nosso sistema eleitoral, que adota o voto eletrônico com sucesso e inequívoca lisura desde 1996. Desde então, nunca houve provas de que urnas eletrônicas tivessem sido fraudadas de modo a favorecer algum candidato ao ponto de permiti-lo tomar posse em cargo eletivo.

As urnas eletrônicas são seguras e quem espalha notícias contrárias está mentindo, da mesma forma que mentem os que afirmam que as urnas eletrônicas são adotadas apenas na Venezuela e em Cuba, além do Brasil. Na verdade, em Cuba ainda se utiliza o voto impresso e, desde a experiência brasileira, a votação eletrônica passou a ser adotada em países de maior tradição democrática que o Brasil, que retomou o caminho de escolher livremente seu governante máximo apenas em 1989.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, as urnas eletrônicas são invioláveis e foram construídas de modo a conter num mesmo bloco (totalmente fechado que impede o acesso a suas memórias internas), a tela, a CPU, e um teclado telefônico acessível a analfabetos e deficientes visuais. Para se chegar a este modelo, foi designado um “grupo técnico” para desenvolver o projeto básico da urna eletrônica. Para tanto, foram chamados três engenheiros do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um do Exército, um da Aeronáutica (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial – DCTA), um da Marinha e um do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD).

.        O Instituto para Democracia e Assistência Eleitoral Internacional (Idea) – uma organização intergovernamental que apoia democracias sustentáveis em todo o mundo afirma que o voto eletrônico é adotado por pelo menos 46 nações. Ainda segundo o Idea, 16 países adotam máquinas de votação eletrônica de gravação direta. Isso significa que não utilizam boletins de papel e, assim, registram os votos eletronicamente, sem qualquer interação com cédulas. A possibilidade de fraude, no caso do voto impresso, é maior, visto que os votos em branco poderiam vir a ser preenchidos após a abertura das urnas. Voto impresso é retrocesso.

Nos Estados Unidos, tão celebrado por sua democracia, nos Estados Unidos, onde o voto é impresso, apurado manualmente, fiscalizado por delegados republicanos, democratas e independentes, houve muita confusão até Joe Biden fosse declarado vencedor na disputa com Donald Trump. Confusão que rendeu protestos, desrespeito às instituições e sangue derramado.

            Voltando pelo túnel do tempo, lembremos de 1959, quando ainda se utilizava o voto impresso nas eleições municipais, o rinoceronte Cacareco, recém-chegado ao Zoológico de São Paulo, foi eleito vereador, obtendo quase 100 mil votos. Ou seja, 9% do total dos eleitores se dispuseram a escrever na cédula Ca-ca-re-co. Esta bizarrice não seria aceita hoje por uma urna eletrônica, que apenas pediria que se confirmasse a anulação do voto caso se digitasse um número de candidatura inexistente.

            Assim, só pode querer a volta do voto impresso quem adora governantes que têm sensibilidade e sutileza de rinocerontes, quem acredita que Covid é só uma gripezinha ou quem não toma vacina com medo de virar jacaré.