VENTOS…..

Spread the love

Talvez haja alguma controvérsia a respeito do que nos move neste mundo, mas uma coisa é certa: o vento move todas as coisas. Vento: ar em movimento. Ar movendo o ar, em fricção com si mesmo até balançar a verde folha; até derrubar o figo verde da figueira, e, ainda assim, nos deixar alguns serôdios.

Vento, terrível vento. Capaz de mover a dura rocha e transportá-la em farelos ao deserto ou, na forma de cisco, ao teu olho.

Vento, amado vento. Traduzido na voz de Jobim, que exaltava “o vento que fala nas folhas, contando as histórias que são de ninguém, as que são minhas e de você também”.

Vento é o que move. Será sempre um sopro original que enfuna velas pelos sete mares, levando-as a descobrir Américas, caminhos para as Índias e para todos os polos, até mesmo para a China de Marco Polo. Que apenas bons ventos impulsionem navegantes e que bons ventos nos acompanhem. Venham de bombordo ou estibordo, popa ou proa, nos levem a bom destino. Longe de nós os maus ventos, para não rodopiarmos em redemoinhos, tufões e furacões, mesmo aqueles que chegam disfarçados com seus delicados nomes femininos.

Fosse eu um viajante em busca da felicidade, não tentaria encontrá-la pela fria agulha da bússola, mas seria guiado pela rosa-dos-ventos, que sopraria em meus ouvidos o bom caminho.

Há milênios, textos judaicos afirmam que “Os ventos estão sempre ao lado dos que mandam”. Porém, esta é a visão capitalista que não podemos assumir como verdade absoluta, pois se não temos o poder de influenciar a direção e a força dos ventos, temos a prerrogativa de escolher aqueles que poderão nos governar.

Que a má lufada jamais nos atinja novamente e que nossos corações sejam tomados pela súbita brisa da esperança. Que os ventos soprem apenas para varrer as folhas mortas do jardim, para que lembremos do tempo em que corríamos entre canteiros empunhando coloridos cataventos, a espalhar as cores de suas hélices pelo ar, tal imaginária purpurina. Que soprem apenas para limpar os terrenos e não devastar o que plantamos juntos para colhermos juntos.

Que mesmo nossos lamentos sejam expressados com palavras belas pois, como disse Renoir, “a tristeza passa, mas a beleza permanece” e, portanto, apenas vamos pedir aos ventos para que não carreguem nossos sonhos, mas que os embalem em segura e confortável rede.

Caio Fernando Abreu afirmou que “paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado”. Porém, não sejamos tão discretos como o personagem Heathcliff, em “O Morro dos Ventos Uivantes”, que terminou por desabafar, tristemente: “Nunca lhe confessei o meu amor com palavras, mas se os olhos falam, o último dos tolos poderia verificar que eu estava totalmente apaixonado”.

E antes que você me pergunte se sou biruta ou cabeça-de-vento para escrever sobre “ventos” numa véspera de Natal, apenas declaro desejar a todos que bons ventos assobiem canções de esperança em nossos ouvidos e livrem-nos de todo o mal, arejando nossos sonhos e carregando para longe toda e qualquer frustração.

Feliz Natal!