VARIAÇÕES SOBRE O CONSTRUIR E O ESCULPIR

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TEXTO – LUIS BOGO

Quando pensamos em construir, logo nos vem à cabeça imagens de tapumes, ferragens, areia, cimento e cal. Poeira, despesa, suor e sujeira. Além do medo de entrar pelo cano, caso alguma conexão venha a dar problema no final das contas.

Desde cedo somos incentivados a construir coisas e carreiras. De preferência, carreiras promissoras para que possamos construir mais coisas e mais casas, como alucinados “joões-de-barro” que constroem casas e mais casas para abandoná-las ocas e depois construírem outras igualmente ocres.

Seria pertinente refletir um pouco sobre a ideia dominante de que é necessário construir alguma coisa para ser feliz. Seria pertinente, também, concluir que tudo que se constrói é efêmero, passageiro e transitório.

Tudo que é concreto veio do pó e ao pó retornará. Maias, astecas e egípcios bem o sabem, porque mesmo opulentas e robustas pirâmides vivem em manutenção. Navios enferrujam ao sol e aos sais. Terremotos, tsunamis, vulcões, guerras e vendavais arruínam cidades com todas as suas pontes, edifícios e coliseus.

Tudo que é construído será destruído, em maior ou menor brevidade, para um dia ser apenas memória. E, isto sim, merece explicação, pois não construímos nossas memórias, mas as esculpimos alterando a capacidade funcional de nossos neurônios, fixando em nossas mentes apenas pensamentos adequados para que nos adaptemos a novidades e circunstâncias inéditas.

Somos capazes de criar o inesquecível e motivar o esquecimento do que deve ser esquecido, de acordo com as intenções, esculpindo o pensar – no que se chama plasticidade sináptica – conforme as nossas emoções, como artistas a elaborar imagens que jamais perecerão, haja a intempérie que houver.

A diferença entre viver e sobreviver é análoga à diferença entre escultura e construção. A escultura permanecerá viva e registrada em arquivos imemoriais ou mesmo atávicos. Da construção, um dia, restará entulho.

E, agora, afastando-nos um pouco dos concretos e ásperos blocos e dos poeirentos tijolos, abstraímo-nos a pensar que devemos guiar nosso comportamento optando por escolhas que nos conectem com a impressionante arte de esculpir a vida, tratando-a não como a um bem que pode ser construído a partir de coisas “construíveis” e passíveis de mercantilização, mas tratando-a como a um barco que navega pelas águas da curiosidade, da experimentação; do prazer da experimentação e pelas desafiantes correntes que estimulam o conhecimento e a busca pelas respostas mais adequadas a todas as circunstâncias; e nos incitam a reflexões sobre o quanto é saboroso Saber e o quanto é reconfortante saber-se sábio para poder errar e para saber sentir.

Uma história construída apenas e simplesmente com os tijolos do corpo e a argamassa da mente terá efeitos tão parciais e fugidios quanto o de palavras ditas ao vento e de outras não ditas, porque calculadamente evitadas. Será lembrança recente e fugaz. Porém, eternamente terá nome e rosto; com rugas, risos, emoção, fantasia e lembrança, a história esculpida com o cinzel do amor.