Um ano de pandemia

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Em pouco mais de um ano de pandemia, houve mais de 2,85 milhões de mortes e 131 milhões de infectados. Quando o primeiro caso foi detectado na China em dezembro de 2019

Em pouco mais de um ano de pandemia, houve mais de 2,85 milhões de mortes e 131 milhões de infectados. Quando o primeiro caso foi detectado na China em dezembro de 2019, os efeitos do vírus Sars-Cov-2 -o novo Coronavírus- eram desconhecidos por pacientes, médicos, cientistas e governos. Mas, desde então, a ciência reuniu um volume enormes de evidências sobre o novo Coronavírus e descobriu como ele é transmitido e se reproduz no corpo e a maneira mais eficaz de nos prevenirmos e tratar quem fica doente. Neste sentido os hospitais se organizaram para atender pacientes acometidos pelo vírus da Covid-19. Entre eles o Hospital e Maternidade Oase se transformou em o único Hospital do Médio Vale do Itajaí a realizar atendimento exclusivo de pacientes acometidos pela Covid-19 com 37 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) contratualidades pelo Sistema Único da Saúde (SUS).Em entrevista o médico coordenador da UTI, doutor Ian Robert Rehfeldt, faz uma análise deste um ano de pandemia para o setor da Saúde, especialmente focando o momento que os profissionais da Saúde estão vivenciando. Questionado sobre o que foi feito na questão de estrutura física e humana durante este um ano para atendimento de pacientes acometidos pelo vírus da Covid-19, o médico explica que em estrutura física teve uma ampliação no número de leitos de UTI no Hospital passando de 10 leitos para 37 leitos ativos. Já na questão humana o Hospital passou por dificuldades para conseguir profissionais da área da Saúde suficientes para trabalhar. “Ainda passamos por esta dificuldade, mas houve um incremento grande no número de funcionários trabalhando no Hospital para suprir o aumento no número de leitos de UTI, que foram ampliados. Essa nova organização foi criada para atendimento dos pacientes com Covid. Outras adequações foram feitas no Hospital como por exemplo no setor de triagem que dirige os pacientes com suspeita de Covid para o Pronto-Socorro Respiratório e pacientes clínicos para o Pronto-Socorro normal. Temos dois locais distintos para pacientes que chegam no Hospital, além de termos na enfermaria vários leitos habilitados para atendimento de pacientes acometidos com Covid-19”.NúmerosDe acordo com o profissional o total de pacientes internados no Hospital Oase de 1º de abril de 2020 até às 7h do dia 31 de março de 2021 foi de 1.111 pacientes. Destes 364 (32,76%) de Timbó; 22 (1,98%) de Ascurra; 64 (5,76%) de Benedito Novo; 29 (2,61%) de Doutor Pedrinho; 98 (8,82%) de Rodeio; 73 (6,57%) de Rio dos Cedros; 39 (3,51%) de Indaial e 45 (4,05%) de Pomerode. “Do total de internados, 447 tiveram que ser admitidos na UTI e tivemos 174 óbitos, ajustado para total com os ainda internados registramos uma mortalidade de 42,43% na UTI”.

Picos da contaminação
Questionado sobre quais foram os piores meses para os profissionais de Saúde neste ano de pandemia, o profissional destaca que: “No ano passado nos meses de agosto e setembro tivemos um grande movimento no Hospital, que resultou em até quatro UTIs em atividade e depois houve uma redução no movimento e foram diminuídos alguns leitos de UTI. E agora, neste ano, entre final de fevereiro e todo o mês de março o número de internações aumentou gradativamente, ou seja, a taxa de ocupação está sendo plena, todos os dias com 100% nos leitos de UTI situação que em 2020 aconteceu esporadicamente. O mês de março, desde o início da pandemia, também foi o mais crítico de todos devido à manutenção do grande número de internados tanto na UTI como também na ala clínica. Pior é saber que no estado tem lista de espera de pacientes aguardando leitos de UTI”.

Sobre os picos da Covid-19 onde se registra meses com altos números de casos e pacientes internados e outros com pouquíssimos números, o médico observa que isso se deve, com certeza, por não haver um tratamento efetivo que combata a doença e porque até pouco tempo não se tinha a vacina, então nada podia ser feito para combater diretamente em termos medicamentosos a evolução da doença.

“O que tínhamos de medidas era só as que estavam sendo adotadas como o uso de máscara, isolamento social, uso de álcool gel, coisas que já eram adotadas precocemente, mas estes incrementos da doença também aconteceram basicamente pelo afrouxar nos cuidados básicos que se precisa ter com relação ao enfrentamento ao vírus. Um fator que é bem evidente refere-se à nova variante do vírus, que também começou a se apresentar no estado de Santa Catarina e no município de Timbó e região. A nova variante gerou um número maior de casos até com características um pouco diferentes do Coronavírus que estava sendo tratado no ano passado, onde pacientes mais jovens acabaram sendo contaminados pelo vírus e tendo que ser internados na UTI, situação que não foi registrada em 2020 e aparentemente uma doença mais severa do que acontecia com o Coronavírus tratado em 2020”.

Profissão de médico na pandemia

Para Rehfeldt, “trabalhar como médico em UTI é uma situação bem específica, delicada e que requer um treinamento especial para cuidar de pacientes em gravidade, onde suas vidas estão literalmente em risco, mas acrescentando a isso uma situação de pandemia. Isso tudo se torna bem mais difícil, quando temos que lidar em primeiro lugar com uma doença contagiosa que expõem toda a equipe de Saúde ao risco de pegar o vírus e assim todos precisam estar sempre muito atentos com tudo o que se está fazendo para evitar a contaminação, e além do que a pandemia exigiu e cobrou dos hospitais um aumento no número de leitos para atender os pacientes. Isso automaticamente gerou um aumento de trabalho para todos os médicos”.

Segundo o médico, nesta situação “percebe-se um desgaste muito grande por parte dos profissionais por terem que fazer muitos horários de trabalho para conseguir prestar atendimento necessário ao elevado número de doentes existente. Essa situação gerou e gera um desgaste da equipe pois não é algo que acontece de maneira pontual, por exemplo de apenas 15 dias, um mês ou dois meses, o problema é que estamos vivendo nesta situação há mais de um ano e com essas idas e vindas de ondas que estão sendo registradas isso requer sempre que a equipe esteja pronta, formando novas escalas de médicos que podem vir trabalhar nas UTIs então tudo isso é bem complexo”.
De acordo com Rehfeldt, lidar com uma doença grave, ter que trabalhar horas extensivas, emendando às vezes plantões, saindo de um hospital e indo para outro, tudo isso acabou virando quase que uma rotina na vida dos médicos que trabalham na assistência de UTI. “Tem sido um momento difícil para toda a equipe médica lidar com essa pandemia e a extensão da mesma. Vimos também colegas médicos perdendo a vida pelo vírus, algo que não é fácil para nós como médicos atender aquelas pessoas que há pouco tempo estavam junto com a gente na lida contra as doenças que nos afligem e agora veio uma doença como esta que além de gerar todo transtorno social, acaba roubando colegas de profissão. Muitas vezes nem só colegas, mas também familiares, situação que gera muita tristeza”.
O profissional afirma que para eles como médicos é muito difícil ver dentro da UTI, por exemplo, vários membros da mesma família, às vezes marido e esposa e um deles vem a óbito, e depois de um tempo o outro vai a óbito também. “Imaginamos que tudo isso é muito complicado para as famílias lidarem e nós como profissionais humanos que somos também sofremos com essa perda pois entendemos a dor que isso gera”.
O médico destaca ainda que outra coisa bem peculiar trabalhando dentro da UTI é o fato do médico ter que passar o boletim informativo via telefone. “Sempre tínhamos o hábito de receber o familiar na UTI para visitar seus parentes antes da pandemia, que dava tempo de explicar aos familiares o que o paciente estava passando, o tratamento que estava sendo feito e como ele estava reagindo e evoluindo. Era uma conversa frente a frente e agora com a pandemia estes contatos precisam ser via telefone, gerando um pouco de frustração para nós como médicos, pois por mais que se tente passar a real situação do paciente para o seu familiar, sempre fica difícil para eles compreenderem apenas com o que estamos comunicando. Então também é mais um fator que dificulta a nossa atividade como médico neste momento de pandemia. Não está sendo fácil lidar com nesta pandemia pois nenhum dos médicos estava preparado para enfrentar uma situação como esta. Tivemos que ir apreendendo muitas coisas novas para lidar com essa situação e procurar oferecer o que é de melhor dentro da realidade que vivemos”.

JMV