SUTIS SUTILEZAS

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TEXTO - LUIS BOGO

Em texto recente, discorri sobre o verbo, as palavras: sobre o peso e as sutilezas de seus significados e significantes, concluindo que a forma como as coisas são ditas ou como as ações são descritas podem levar a interpretações e entendimentos diferentes sobre um mesmo fato. Na ocasião citei duas palavras pouco utilizadas no nosso dia a dia para ilustrar o assunto – energúmeno e nefelibata*. Porém, o tema “sutileza” não se esgotou nesta minha primeira abordagem e, de modo pouco sutil, percebi-me aflito a refletir sobre as sutilezas contidas nas palavras que não são pronunciadas, sobre as sutilezas das palavras expressadas subjetivamente, apenas e tão somente em movimentos corporais espontâneos como o piscar de olhos ou, então, em trejeitos finamente elaborados e ensaiados como passos de ballet. Em palavras mudas, repletas de gritantes branduras, em palavras contidas num olhar ou em gestos mansos, quase inexistentes de tão mansos.

De um modo geral, a crueza do verbo cozinha, assa ou incinera a sutileza do que ele próprio representa em sua essência.

Na natureza, uma onda é e sempre será uma onda que pode lamber a praia ou açoitar rochedo. Que pode embalar a gôndola dos namorados ou provocar naufrágio em alto mar; mas, enquanto palavra impressa, “onda” será apenas um conjunto de símbolos gráficos a suplicar por um cérebro que o codifique e lhe dê algum sentido: manso, feroz, romântico ou catastrófico.

A palavra “voo” representará sempre um voo, desde o paciente planar que identifica o alvo, até o mergulho fatal de captura à presa, mas quando a imaginação decola é que os céus se abrem para uma revoada de significados sutilmente distintos que nos permitem viajar, sobrevoar, flanar até esferas desconhecidas.

E, voltando à nossa velha, conhecida e elíptica órbita, voltando a este mundo que nos sensibiliza tímpanos e retinas; mucosas, papilas e todos os poros através de estímulos físicos, é que reconhecemos a necessidade de apurar a nossa percepção para receber cada sinal que venha a nos chegar aos lábios e à língua, aos olhos, aos ouvidos, ao nariz e à pele.

Muitas vezes, a luz chegará a nós em magnitude solar. Noutras, surgirá em sutis fios de prata a costurar um acolchoado de nuvens (e será sutil a distinção entre a nuvem estar sendo transpassada ou carinhosamente abraçando a luz). O som nos virá pelo discreto farfalhar das árvores ao sopro da brisa ou pelo escandaloso trovão. Delicados perfumes de hortelã e flores virão dos campos para o deleite do olfato. Aromas mais encorpados escaparão da cozinha aguçando o paladar. E o tempo dará tom sépia aos retratos que tatearmos, enquanto observarmos sinais de flacidez na pele das nossas articulações.

A juventude tem uma energia bruta, abundante e meteórica, que destina pouca atenção a miudezas e minúcias. É sensorial e pouco sutil: no verão, surf em altas ondas; no inverno, downhill.

Mas, nos vem a senescência a trazer novas, peculiares e suaves preferências: hora de apenas ouvir a voz do mar e de contemplar a folha a despencar da amendoeira. Talvez escrever sobre o que se vê, o que se viu, o que se sente ou se sentiu. Sentimentos mais serenos confundem os sentidos sobrepõem-se a eles.

É quando passamos a dar menor atenção às coisas extremas e maior atenção às sutilezas. Abandonamos o demais amargo e o muito doce. É quando sorvemos o instante de amizade bem devagar, como quem degusta um chá bem quente. É quando provamos o amor bem sutilmente, como se ele fosse – apenas e tão somente fosse…– um beijo no rosto a resvalar, saboroso e agridoce, ao cantinho úmido e tímido dos lábios.

* https://mediovaleemfoco.com/energumenos-e-sutilezas/