SOLUÇOS

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TEXTO - LUIS BOGO

No momento em que escrevo este texto, a mãe gentil está preocupada porque seu filhinho proeminente apresentou soluços e precisou ir ao hospital para exames. Muito justo que a mãe, gentil como devem ser todas as mães, preocupe-se. Afinal, ninguém gosta de saber que um dos seus esteja dodói. E, assim, todos nós torcemos para que a causa deste soluçar seja descoberta e tal desconforto não prejudique a ultra brilhante carreira do menino.

Fosse um menino normal, diríamos que ele soluça porque, assistindo a um programa de TV, viu a Terra ser atacada por um inimigo invisível que rouba o ar das pessoas, provocando milhares de morte. Mas como não é um menino normal, a razão de seu soluço certamente tem outra origem, pois ele sabe que inimigos invisíveis podem ser facilmente abatidos com aquele mesmo remédio que mata lombriga, piolho, sarna, e também aquela doença de nome bem estranho mais conhecida “cegueira do rio”.

Acontece que este menino foge aos padrões normais de raciocínio. Sua cegueira extrapola todos os rios: o de Janeiro, o Grande do Sul e os de toda a Amazônia e bacia do Paraná, passando pelos vales do Jequitinhonha, do Doce e do São Francisco.

Talvez a causa do soluçar do menino seja uma estrongiloidíase que interrompe as sinapses entre os neurônios do seu intestino. Vamos orar por ele, então, para que logo se restabeleça e para de sentir dores e soluçar horrores.

O fato é que neste mesmo momento em que comento os soluços do ultra brilhante menino, há milhares de famílias soluçando os mais de 538.000 vizinhos do menino que pararam de soluçar, desde que o inimigo atacou os quintais próximos no início do ano passado, roubando-lhes até o ar do último suspiro.

Os médicos saberão como agir para controlar os soluços do menino, temos certeza de que este desconfortável refluxo brevemente terá fim. Quanto ao dolorido soluçar de seus vizinhos, o tempo há de amenizar tamanho sofrimento.

 E, enfim, para que menos pessoas e famílias venham a sofrer no futuro próximo ou distante, para que se ouçam menos soluços nas casas, hospitais, igrejas e capelas, vacinação é a solução.