SABERES E SABORES PICANTES NA PONTA DA LÍNGUA

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TEXTO - LUIS BOGO

A língua, este músculo avermelhado e sensível que habita e se move em nossas bocas, é dotada de células diferenciadas, aptas a perceberem e distinguirem todos os sabores do mundo. Na ponta da língua, reconhecemos a doçura do mel e do açúcar. No centro, os sabores salgados; atrás, na região próxima à faringe, o amargo; e nas bordas, o azedo e o ácido, sensivelmente mais picantes.

Porém, decerto por me julgarem um tanto mordaz, irônico, sarcástico e de “língua afiada”, solicitaram-me que nesta crônica eu utilizasse a Língua Portuguesa para explicar a língua-músculo e me concentrasse na palavra “picante”, adjetivo capaz de insinuar significados mais ardidos – ou de suave malícia – a qualquer texto ou contexto. Decidi, então, misturar sabores e saberes, a fim de tornar a dissertação mais atraente a todos os paladares.

É picante a gota de pimenta que excita papilas e mucosas, depois de acidentalmente derramada sobre a inocente empadinha. E para ser picante não é preciso que o tempero seja forte como a berbere da Etiópia, a habanero da Colômbia, a sri racha (pimenta preta do Vietnã), o curry, tão utilizado na gastronomia da Índia; ou, ainda, a malagueta das nossas moquecas, pois são certas circunstâncias especiais que podem tornar picante até mesmo a oferta de uma garrafinha de água saborizada com frutas e flores, porque serão apenas o gesto – e o momento do gesto – os elementos capazes de transformar o aroma de framboesa ou cereja em sensação de picância, considerando-se que, do ponto de vista cognitivo, uma garrafa d’água será sempre e tão somente uma singela garrafa d’água.

Em se tratando de travessuras gastronômicas, então, nada poderia ser mais picante do que encerrar a refeição romântica com uma não picante gelatina, preparada com pétalas de rosas tão vermelhas quanto a mais proibida das maçãs.

Porém, voltando à Língua-mãe, devo dizer que verdadeiramente picantes são os jogos: os sugestivos jogos de palavras que levam à descoberta de sentidos que vão além dos cinco sentidos, que levam a simbologias que vão além do étimo, da palavra primitiva. São picantes as construções vocabulares que transformam palavras cruas em fontes de calores, tremores e arrepios.

            Talvez me soasse picante perceber lábios de romã balbuciarem “– isto é muito bom…” – enquanto eu meneasse cabelos negros como a noite e deles despencassem estrelas douradas, visíveis apenas aos meus olhos entorpecidos por pílulas de sonho.

            Confesso que por inspiração própria eu jamais dedicaria tantas linhas a esta apimentada retórica. Não me resta dúvida, portanto, de que houve um dedo de moça a me apontar para temática assim tão quente, aromática e apetitosa.

E, se a esta moça eu pudesse dizer algo picante, neste momento eu diria, em ritmo de bolero e solamente una vez: “– Olhe para o céu, meu amor. Você verá que Vênus existe. Mesmo a um coração e a olhos ateus”.

LEGENDA DA ILUSTRAÇÃO Dedos-de-moça dão um toque especial aos alimentos e trazem calor até mesmo às paisagens mais frias