ROMANTIZAR OU NÃO, EIS A QUESTÃO

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TEXTO - ESCRITOR LUIS BOGO

Antes de mais nada, é preciso que se faça a distinção entre romancear e romantizar. Como gênero literário, o romance é uma narrativa longa e detalhada, que descreve ações de personagens em tempo e espaço determinados por um narrador, que detalha as tramas da história de acordo com sua visão pessoal.

Qualquer fato pode ser romanceado. Desde o resgate de um náufrago ou de trabalhadores presos em uma mina de carvão; passando por conflitos armados, descobertas científicas, aventuras e viagens ultramarinas ou espaciais; acidentes e tragédias (incêndios, naufrágios, terremotos); e dramas pessoais ou contendas familiares, como aquela entre os Capuletos e Monte chios, celebrizada por Shakespeare em Romeu e Julieta.

Por isto é que há tantos subgêneros para classificar romances: eles podem ser históricos, urbanos, épicos e até mesmo romances-românticos, quando narram histórias de amor, tenham elas finais felizes ou não. Foram os romances-românticos que transformaram e popularizaram o termo romance em sinônimo para qualquer narrativa amorosa, pelo sentimentalismo que retratam em cenas poéticas ou exibindo comportamentos apaixonados.

Então, não há como falar em romance e não falar no seu ator principal: o “Ser-Romântico”. Ele tem a alma faminta por emoção e, assim, é capaz de “romantizar” as situações mais corriqueiras e banais: jamais sufocará a alegria de apaixonar-se, de fazer a contagem regressiva para um encontro, para um ligeiro abraço e o improvável beijo: ele sofre o intervalo de sete dias como se fossem 40 anos a caminhar em círculos no deserto.

Romantizar é resgatar o mito do herói que busca salvar sua Dulcinéia trancafiada na torre ou defendê-la de dragões imaginários, como um D. Quixote a se estropiar contra moinhos de vento. É transformar em história sem fim, digna de eternos suspiros e ais, o encontro bissexto, velado, quase furtivo e geralmente casto. É imaginar inundação a partir da lágrima, transformar faísca em fogueira.

Romantizar é navegar entre ambiguidades, incertezas e paradoxos, por uma lógica difusa, por verdades parciais. É pensar que se perdeu o que não se teve. É imaginar perdido o amor nunca realizado, mesmo porque jamais correspondido; e que, não tendo germinado e nascido – posto que o desejo seria a semente e o coração alheio o solo fértil –, por que haveria de morrer? Por outro lado, então, por que não seria possível acordá-lo desta latência?

Posturas românticas buscam outras formas de resignação que vão além do conformismo puro e simples. Exaltam emoções e sentimentos, mesmo que sejam os mais tristes, e trazem ainda mais verdade ao axioma de Michaux, de que é preciso “saber aromatizar suas perdas”.

Enquanto o romantismo se expressa de modos e maneiras mais contemplativas, quem romantiza é propenso a exageros. Estas características se evidenciam nas atitudes do homem comum (seja rico ou seja pobre) e nas manifestações artísticas populares e eruditas.

Esculturas produzidas durante o período romântico privilegiavam o sentido dramático das imagens, reproduzindo cenas que sugerem movimento e privilegiando expressões corporais e recortes em detrimento a superfícies polidas e lisas. Na música clássica, Chopin, autor de melodias complexas e tocantes, é considerado “o príncipe dos românticos”, e há uma história sobre uma canção composta em ritmo de bossa nova, o “Samba em Prelúdio”, que faz uma inusitada ligação entre o compositor austríaco e dois príncipes do lirismo musical brasileiro: Baden Powell e Vinicius de Moraes.

Consta que certa noite, Baden e Vinicius conversavam quando o primeiro começou a dedilhar sublimes acordes no seu violão, fazendo Vinicius lhe indagar: – Isto é Chopin? – ao que Baden respondeu: – Não. É minha… – E, dada a qualidade e o romantismo da melodia, Vinicius completou: – Então, esta ele esqueceu de fazer! – E, para o bem dos nossos ouvidos, naquela mesma noite o poeta escreveu a letra para a canção, incluindo o emblemático verso “sem você, meu amor, eu não sou ninguém”, um toque dramático que romantizou ainda mais o que já nascera romântico.

Mesmo em outros estilos musicais o ato de romantizar está presente: até no rock and roll. Em “Exagerado” (como já foi dito, o exagero é uma das marcas de quem romantiza!), Cazuza cantava: “paixão cruel, desenfreada, te trago mil rosas roubadas”, deixando evidente a necessidade de expor o sentimento amoroso ao mundo de forma radical, tratando-o como uma compulsão cruel e consequentemente dolorosa, capaz de provocar pensamentos obsessivos e atitudes extremas, como assaltar a floricultura, arriscar-se em lutas inglórias feito um Quixote moderno; e até mesmo entrar num processo de somatização que pode incluir arritmias cardíacas e formigamentos pelo corpo, além de insônia e dificuldades de concentração, entre outros sintomas.

O certo é que o cérebro não trabalha exclusivamente com a realidade, mas com as informações sobre ela. Processamos tudo o que vemos e ouvimos. Processamos o que nos é sensível aos cinco sentidos, para em seguida reagir: romanceando ou romantizando, ignorando ou relativizando os fatos.

E, para encerrar o assunto – antes que eu comece a romantizar demais e me debulhe em amargas lágrimas –, como poeta, sinto-me no dever de defender a classe, afirmando que às vezes é necessário se dar ao luxo de ser romântico, mesmo que seja de um modo bem acanhado, ‘fingindo que é dor a dor verdadeiramente sentida’.

Ilustração de Gustave Doré (1832-1883) retrata a luta de D. Quixote contra um dragão imaginário