Os perigos de desconhecer seus valores pressóricos

Não sei se você é esse tipo de pessoa, mas eu tenho visto no consultório, cada vez mais pessoas dando pouca ou nenhuma importância ao adequado controle pressórico.

Penso que se isso está acontecendo, ou ocorre devido à falta de informações sobre a relevância do controle adequado da pressão arterial ou simplesmente, porque as pessoas estão escolhendo viver no descaso e ignoram os potenciais riscos de conviver diariamente com a pressão arterial em níveis descontrolados. Para sanar qualquer tipo de dúvida sobre a real importância de manter um bom controle pressórico para a sua saúde, eu trago aqui alguns bons argumentos.

Inicialmente você precisa conhecer os valores normais de pressão arterial. Segundo a última diretriz brasileira de hipertensão – atualizada em 2020, é definido como hipertenso o indivíduo que mantem valores persistentemente elevados de pressão arterial sistólica maior ou igual a 140 mmHg ou que apresentem valores de pressão arterial diastólica maior ou igual a 90 mmHg. Há exceções à essa definição, em especial, pessoas com problemas renais crônicos e os diabéticos devem manter seus valores pressóricos ainda mais baixos. Para esse grupo de pessoas, o ideal é manter valores pressóricos inferiores a 130 mmHg por 80 mmHg.

Acontece que a pressão arterial persistentemente elevada causa diversos danos à saúde e a maior parte desses danos você não irá notar. E aí é que mora o perigo! Você não irá perceber a perda da função renal decorrente da hipertensão, nem irá notar facilmente as alterações da visão que a hipertensão pode causar, também não vai sentir seu coração ‘engrossar e ficar grande’ – chamamos isso de hipertrofia, com o passar dos anos de pressão elevada. Tão pouco irá perceber os pequenos sangramentos cerebrais – as micro hemorragias, que ocorrem com o passar dos anos de pressão persistentemente elevada porque essas alterações ocorrem nos vasos mais pequenos e finos do seu corpo – as arteríolas e as vênulas. É necessário acumular muitas lesões em arteríolas e vênulas para que ocorram manifestações clínicas. A grande maioria das manifestações decorrentes da hipertensão são diagnosticadas de forma muito tardia. Isso significa dizer que o dano gerado naquele órgão é irreversível.

O seu cérebro, em especial, pode sofrer diversos danos. Os vasos cerebrais, com o passar do tempo começam a exibir pequenas ulcerações em suas paredes, uma espécie de ferida que afina e fragiliza este capilar. Com o tempo e com a pressão alta esse vaso pode romper e causar o temido Acidente Vascular Encefálico do tipo hemorrágico (AVEh). Aneurismas também podem se desenvolver. A força com que o sangue bate no vaso cerebral varia conforme os níveis pressóricos e, em algumas regiões específicas dos vasos intracranianos de médio e grande calibre podem surgir os aneurismas. Aneurisma é uma espécie de dilatação localizada do vaso onde há maior fragilidade e risco de ruptura. Além disso, quando os vasos cerebrais mais pequenos são afetados pela pressão alta eles também se rompem causando pequenos sangramentos que, com o acúmulo repetitivo, podem levar a um quadro demencial – chamado de demência vascular subcortical.

Um terço da população brasileira adulta é hipertensa. A chance de desenvolver hipertensão é maior a partir dos 60 anos, quando os vasos do corpo não estão mais tão flexíveis à distensão quanto na juventude. No entanto, é crescente a parcela da população adulta e adulta jovem que tem seus níveis pressóricos persistentemente elevados. Isso está associado a diversos fatores modificáveis como sedentarismo, obesidade, apneia do sono, consumo de álcool crônico, consumo elevado de sódio na dieta (valores acima de 2g de sódio o que equivale a 5g de sal de cozinha ao dia) e excesso de estresse emocional.

A dica que eu quero deixar para você hoje, é – conheça os valores da sua pressão artéria e realize consultas periódicas para detecção de desregulação pressórica mesmo se você não sente absolutamente nada. Faça essa prevenção! Vivemos no século XXI, a agitação e a correria no nosso dia a dia são crescentes, mas, momentos de pausa e avaliações preventivas se fazem necessárias. Hoje, sabemos que ausência de doença não significa ter saúde. Ter saúde vai muito além. Não ter sintomas de doenças não garante o status de “pessoa saudável”. Previna-se! 

Dra. Taimara Zimath

Neurologista

CRM SC 21497 RQE 18708

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