O SEBO…..

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TEXTO – LUIS BOGO ESCRITOR ,POETA ,E COLUNISTA

O sebo é uma substância gordurosa produzida por organismos animais e pode ser utilizado de diversas formas: serve para engraxar superfície ou como ingrediente na fabricação de velas e sabão. O sebo de carneiro também é empregado terapeuticamente para tratar machucados, feridas e inflamações.

Este tipo de gordura ainda é usado na culinária, como substituto da banha ou de óleos vegetais, embora muita gente torça o nariz a esta prática, devido à textura e ao aspecto pouco atraentes do produto. Assim, não costuma ocupar lugar de honra nas prateleiras dos supermercados e vitrines dos açougues. E, não à toa, pessoas consideradas chatas e importunas são chamadas “sebosas”.

Porém, aqui vamos tratar de outros e mais nobres sebos: as lojas que comercializam discos e livros usados.

Recebem este nome pelo número de mãos – muitas vezes gordurosas –, que manipularam seus produtos. A grosso modo, podemos afirmar que tais estabelecimentos são a gordura da cultura, porque após alguém imaginar ter tirado toda a carne nutritiva do livro, restando-lhe apenas a surrada capa e amareladas páginas, o exemplar é descartado, tal e qual o sebo e a gordura do prato do fino gourmet.

Mas, praticando exercícios de paciente garimpagem, são nestes sebos que podemos nos surpreender positivamente, pois assim como a pérola que é gerada por um ser estranho inserido entre o manto e a concha da ostra, obras muito valiosas, preciosas raridades, podem estar acidentalmente inseridas em prateleiras repletas de velhos almanaques ou antigas coleções de fotonovelas.

Não existissem os sebos, talvez eu não soubesse da milenar afirmativa de Platão: “Com o toque do amor, todos se tornam poetas”. Com certeza, não saberia que Leonardo da Vinci escreveu “As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar”, nem que Santo Agostinho declarou que “A medida do amor é amar sem medida”, frase corroborada por Albert Camus quando disse a mesma coisa utilizando as seguintes palavras: “Amar uma pessoa significa querer envelhecer com ela”.

Não fossem os sebos, talvez eu nunca tivesse escutado o lindo verso de Chico Buarque, em Acalanto: “Eu vou rasgar meu coração pra costurar o teu”, nem teria ouvido Leminski declamar: O destino quis que a gente se achasse, na mesma estrofe e na mesma classe, no mesmo verso e na mesma frase”.

Não saberia que, bem antes do surgimento da psicanálise, Goethe antecipou um conceito psicanalítico: “O amor e o desejo são as asas do espírito das grandes façanhas”. Pura pulsão de vida, não é, não?!

E também não teria conhecimento de que, para expandir a mente, às vezes é preciso viajar até o País das Maravilhas e “acreditar em seis coisas impossíveis antes do café da manhã”, de modo a transformar o impossível em possibilidade real.

Ao folhear o livro que esteve hibernado no sebo, toma-se contato não apenas com a história que suas páginas contam, mas pode-se imaginar que olhos a leram antes, que mãos viraram aquelas folhas, que impacto aquele enredo teve na vida de quem o conheceu. E, por fim, imaginar a razão pela qual um livro tão interessante fora destinado a um sebo ao invés de ser carinhosamente guardado em boa estante.

(Talvez, o generoso primeiro leitor quisesse que história tão admirável fosse conhecida por outras pessoas, quem sabe?)

Lembro-me, agora, daquele meu exemplar de “Pergunte ao Pó”, de John Fante, adquirido em um sebo e depois da leitura doado a outro. Nele aprendi que no deserto não há caminho algum, pois a única estrada que nele se desenhará é aquela que meus passos marcarão na areia que ficar para trás. Porém, compreendi que sua imensa amplitude, sua generosa largueza, oferece centenas, múltiplos caminhos por desafiadoras dunas ou extensas planícies.

Começo a imaginar o que pensaram os leitores desta história que vieram após mim. Identificaram-se com Arturo Bandini? Nutriram por ele alguma simpatia ou empatia? Sonharam seus sonhos e compartilharam de suas angústias? E sobre Fante, o autor, o que pensaram?

O certo é que, neste universo dos sebos, onde letras e músicas eclodem depois de longos períodos sob poeira e esquecimento, sempre será possível atingir um horizonte mágico, pois a arte faz o milagre de abrir oceanos de interrogações.