O que não é normal no envelhecimento? E o que é possível fazer para prevenir demências?

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Segundo a OMS, 35 milhões de pessoas vivem com demência e, em 2030 esse número pode chegar a 65,7 milhões. Isso soa assustador para você? Que tal conversar um pouco sobre como a nossa cognição é afetada e o que é demência?

Cognição é o conjunto de funções mentais que nos possibilita reconhecer, pensar, aprender, memorizar, manter a atenção e o foco, ter capacidade de abstração, de raciocínio lógico e de solucionar problemas. Inclui também a capacidade de comunicação através da linguagem e a percepção visual e espacial, além disso, podemos também incluir o comportamento, no seu sentindo mais amplo, como uma entidade cognitiva. Em resumo, quando uma ou mais alterações ocorrem em algum desses domínios cognitivos e, é capaz de causar um impacto funcional no dia a dia pode-se dizer que há uma síndrome demencial instalada.

Muitas pessoas utilizam o termo demência como um sinônimo de Doença de Alzheimer mas, o que poucos sabem é que o Alzheimer é apenas uma das possíveis causas de quadros demenciais. Existe uma diversidade de processos demenciais além da própria Doença de Alzheimer. Claro que, o  medo e o maior conhecimento geral sobre o Alzheimer se justifica já que, esta é a demência mais comum de todas.

A medida que você envelhece o seu cérebro envelhece também! No entanto, o que você precisa saber é que tanto o Alzheimer como as demais demências são parte evitável do processo de envelhecimento. Não é natural tornar-se dependente e disfuncional com a idade. Os processos demências não fazem parte do envelhecimento normal! Precisamos combater esse tipo de crença! Nesse sentido, o momento chave para buscar ajuda seria na fase de comprometimento cognitivo leve (CCL) isto é, quando há alguma queixa relacionada a memória ou a outro domínio cognitivo mas, que ainda não causou um prejuízo de função no seu dia a dia.

O comprometimento cognitivo leve é um estado de risco aumentado para o desenvolvimento de demência. Estudos apontam que o CCL ocorre em cerca de 20% de todas as pessoas com mais de 65 anos. Esse seria o momento ideal para intervenções.

Você sabia que 40% de todas as causas de demência conseguem ser abordadas e evitadas se você for avaliado nessa fase e aderir ao tratamento médico? Isso mesmo, de forma precoce e com estratégias direcionadas que incluem medicamentos e mudanças no estilo de vida isso é possível!

Dentre os fatores de risco potencialmente modificáveis para o desenvolvimento de processos demenciais que devem ser combatidos consistentemente tem-se; a hipertensão arterial mal controlada, a obesidade, o tabagismo, o sedentarismo, o diabetes – eles tem em comum mecanismos vasculares de lesão cerebral que, além de contribuírem para demência vascular, também contribuem para a neurodegeneração. Outro fator importante é a reserva cognitiva, quanto mais cedo na vida se constrói essa reserva através de educação e estímulo intelectual, melhor. Quando você tem uma boa reserva cognitiva você faz com que o seu cérebro seja capaz de tolerar maior quantidade de doença sem que haja manifestação clínica. Depressão é outro fator potencialmente tratável associado as demências. E mais recentemente, o isolamento social também passou a ser considerado um fator de risco que deve ser combatido para não acelerar o processo de conversão de CCL para uma demência. Por fim, estudos mostram que o acidente vascular encefálico (AVC) praticamente dobra a chance de desenvolver demência. E cerca de 90% dos AVC são passíveis de prevenção. Isso significa que reduzir o risco de AVC fornece mais uma oportunidade de reduzir as taxas de demência. Isso é fundamental no nosso país que tem uma grande carga de doenças cardiovasculares.

Combatendo todos estes fatores de risco potencialmente tratáveis há redução de até 40% dos casos de demência. E isso é algo muito impressionante quando se fala em um cenário de doenças progressivas e que ainda não possuem um tratamento curativo! Eu espero que, cada vez mais, você entenda os processos demências como um conjunto de sintomas cognitivos com vários mecanismos causais interligados e compreenda que há vários componentes que podem ser modificados que te ajudar a evitá-los. É possível sim chegar a essa condição com um ponto de vista e abordagem mais otimista e sermos mais contundentes em relação a sua prevenção.

Dra Taimara Zimath

Neurologista –  CRMSC 21497 RQE 18708