O ESTADO FÍSICO DO AMOR…..

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texto : Luís Bogo

De substantivo abstrato a concreto sentimento, assim é o amor: líquido como água que emerge e flui e evapora ou petrifica-se em gelo.
Das profundezas, oculta em meio a outros minérios e mistérios, a água brota e surge transparente e vital pelos olhos úmidos da terra, escorrendo como escorrem todas as lágrimas; e então, se avoluma em rios e oceanos para depois, lentamente, transformar-se em gás e em nuvem.
Das profundezas da alma brota o amor: um ser fluido percebido em gozo ou suor; sentido em etéreos calores e arrepios ou, ainda, na paixão glacial de seu próprio adormecimento, em seu ‘desacontecimento’.
É incolor como a água; mas, como a nuvem vaporosa e clara que dá sombra e enfeita o céu, pode assumir-se escuro ao ser manchado por névoas de suspeita, insegurança e ciúmes. E, tal e qual a água, que em sereno ondular preenche 70% da superfície da Terra ou apresenta-se como furioso dilúvio, o amor pode insinuar-se na alma por toda uma vida, podendo ter sabor mais salgado do que doce ou mesmo se apresentar como lagoa cristalina e transbordante, mas estéril e seca de peixes, apenas decorativa como um velho arbusto que não gera sombra ou fruto, se acaso não for recíproco.
Respirável, a gasosa atmosfera do amor é combustível para alimentar os pulsantes e rubros tecidos que geram e sustentam a vida. Faz mover os músculos, umedece e infla as narinas, inflama o olhar.
Rascunhado e desenhado pelos mágicos pincéis do mistério, o amor que flui como plácido rio em seu leito jamais permitirá que se desvende o seu ciclo, que se saiba se teve origem no degelo da montanha ou na liquefação da nuvem, apenas se mostrará potente como algo que veio do céu com a potência de um raio; ou que galgou, com paciência e persistência, entranhas cravejadas de carvões, rubis e diamantes.
O amor não escreve histórias, não compõe sinfonias, não encena tragédias nem farsas. Identifica-se e assina com invisíveis digitais. Quer ser provado a todo instante. E sempre emudece, mesmo que pareça gritar: “– Devora-me ou te decifro”.