O BEIJO

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TEXTO - LUIS BOGO

Ele é mais antigo que a maratona. Apresenta-se em diversas modalidades e sua prática não tem a finalidade de apontar vencedores ou vencidos: o importante é dele participar. Embora não seja esporte, faz muito bem à saúde e bem poderia ser chamado “olímpico”.

Assim, respeitável público, respeitáveis senhoras e senhores! É com imenso prazer que lhes apresento o insubstituível, o querido, uma das atrações mais desejadas do dia e da noite: o admirável beijo!

Atualmente, os dicionários o definem de forma fria, como se fosse apenas um “toque de lábios, pressionando ou fazendo leve sucção geralmente em demonstração de amor, gratidão, carinho…” – mas todos nós, mesmo os mais castos, sabemos que ele é e representa bem mais do que isto desde o surgimento da raça humana. Basta lembrarmos que o beijo mais famoso de todos os tempos – que saíram dos lábios de Judas para a face de Cristo – não trazia nenhuma mensagem amorosa, apenas traição e condenação.

Na cultura ocidental, o ato de beijar pode ser apenas um gesto de afeição, mas já esteve ou ainda pode estar sujeito a algumas regras protocolares. Na Roma Antiga, por exemplo, os nobres mais influentes beijavam os lábios do imperador, os menos influentes beijavam-lhe as mãos, enquanto os súditos prostravam-se para beijar-lhe os pés. Na Rússia czarista, antes da Revolução de 1917, receber um beijo do Czar era a maior forma de reconhecimento a um cidadão. Na monarquia brasileira, D. João VI, mandava abrir os portões do Paço Imperial, para que o povo viesse lhe beijar as mãos em dias determinados, e na Igreja Católica, até hoje é ato de reverência beijar os anéis de autoridades eclesiásticas, como os dos bispos, cardeais e, principalmente, o anel do Papa.

Nas letras, o beijo aparece pela primeira vez na literatura hindu, no poema Mahabarata, do livro védico Satapatha, escrito por volta de 1.200 a.C., que entre seus mais de 200 mil versos diz assim: “– Pôs a sua boca em minha boca, fez um barulho e isso produziu em mim um prazer”.

O fato é que a prática do beijo se popularizou, sofisticou-se e diversificou-se através dos séculos, porque depois do versículo do Mahabarata vieram alusões ao beijo no Kama-Sutra – livro que detalha técnica, moral e ética do beijo na boca – e em muitas outras edições literárias, das mais bufas às mais eruditas.

Nas artes plásticas, o beijo é elemento presente desde a antiguidade, tendo sido retratado, através de pinturas e esculturas, pelas mais diversas Escolas e tendências ao longo da história.

Mesmo quando a Igreja tentou proibir o beijo na boca, no século XVII, não obteve êxito, pois até hoje argumentos moralistas ou infantis, como a sugestão de que “beijar na boca dá sapinho”, apenas acendem a chama da curiosidade no coração da criançada. Freud nos lembra que a boca é a parte do corpo utilizada para descobrir o mundo que nos cerca e suprir nossas primeiras e básicas carências, e o beijo seria nossa “cartilha” natural para a iniciação sexual.

E, logo a partir do fabulário infantil, vamos descobrindo que beijo é coisa mágica. Foram beijos que fizeram despertar a Branca-de-Neve e a Bela Adormecida de seus sonos amaldiçoados. Foi o beijo da princesa que fez o príncipe voltar à sua condição original, ressurgindo em vestes riquíssimas depois de ser transformado em sapo asqueroso pela bruxa má.

Desagradável, talvez, seja envelhecer percebendo que o seu reino particular esteja indo para o brejo, sentindo-se um “macarrão sem queijo” porque só viveu amor sem beijo, e ao tentar consolar-se com poesia deparar-se com a cáustica drummoniana: “(…)Boca amarga pois impossível, // doce boca (não provarei), // ris sem beijo para mim, // beijas outro com seriedade

Mas o beijo que realmente interessa ser provado e salivado, o beijo de gosto e barulhinho bom (como a voz da Marisa Monte repetindo beija eu, beija eu, beija eu, me beija…); o beijo amoroso e romântico, este enrubesce a face, acende as entranhas, ilumina o coração.

O certo é que quando bocas apaixonadas se tocam, almas começam a se fundir. Harmonizam-se os vinhos das salivas, que se fazem doces como as uvas e framboesas, amoras e tangerinas. E, apesar da acidez das frutas que evoca, o beijo é quase alcalino: inebriante, revela o delicioso paladar do amor.

Os Amantes (1928), de René Magrite. O véu pode indicar a frustração diante do desejo não realizado. A Obra está exposta no Museu de Arte Moderna de Nova York
Neste quadro de Gustav Klint, pintado entre 1907 e 1908, fica evidente o interesse do artista pelo enlace amoroso, retratado em cores vibrantes
A belíssima escultura em mármore, de Rodin, concluída em 1887, também mostra o casal ainda com os lábios afastados, num beijo ainda não consumado
Na Pop-Art. de Roy Lichtenstein, Kiss V, de 1964, apesar dos traços e das cores vibrantes, as lágrimas da moça dão expressividade dramática à cena
The Reunion of the Soul and Body, de William Blake, retratando a espiritualidade do encontro amoroso.