NUDES…..

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texto – luis bogo escritor ,poeta e colunista

foto Cena do filme “O Homem Nu” (1968), baseado em conto de Fernando Sabino. / Divulgação

Não resta dúvida de que o advento da internet remodelou nossos comportamentos e a forma de viver, facilitando muitas ações, especialmente as trocas de mensagens entre pessoas; o comércio eletrônico; as transações financeiras; leituras e pesquisas acadêmicas e, também, a troca de outros conteúdos, às vezes eróticos ou pornográficos, através das diversas redes sociais.

Pediram-me que escrevesse sobre este último grupo, composto por narcisistas, exibicionistas e voyeuristas. Porém, antes de focar especificamente neste aspecto, acho prudente alertar que já é comum nos consultórios de psicoterapia a presença de pessoas afetadas pela “mais nova doença do século”: a Adicção por Internet (AI), doença que impacta crianças e adultos pelo uso excessivo das redes sociais.

O termo adicto vem do latim e significa “escravo de”. Refere-se à situação em que se inverte a relação entre sujeito e objeto, fazendo a pessoa perder a capacidade de dominar as situações e transformando-a em escrava de seu objeto de predileção. Antes da internet, o termo era utilizado para enquadrar as pessoas que passaram a ser controladas pelo álcool e outras drogas, mas as redes sociais acabaram por gerar esta nova categoria de adictos, definidos pela sigla “AI”.

Voltando à pauta que me propuseram, quero deixar claro que a mim pouco importa a forma como a pessoa deseja se expor ou preservar. Procuro dar atenção apenas ao que me é conveniente olhar e ver, pois da mesma forma que as redes sociais se prestam à divulgação de fake news e outras publicações nefastas, também se prestam a frivolidades narcísicas e hedonistas. E cada qual que fique com a sua.

Porém, o aspecto importante a ser colocado é que o consumo exagerado e pouco criterioso da internet pode ter efeitos danosos à estabilidade emocional e até mesmo provocar atitudes extremadas que atentem contra a integridade física e a vida, fato já comprovado por diversas pesquisas sobre a influência da mídia na saúde mental e no bem-estar, como, por exemplo, o inquérito epidemiológico #StatusOfMind, publicado na “United Kingdom’s Royal Society of Public Health”, que listou 14 itens relacionados com estas questões.

A conclusão deste e de vários outros estudos sobre o assunto é que as plataformas consideradas mais nocivas são aquelas em que os conteúdos divulgados mais valorizam a imagem e o corpo em detrimento aos conteúdos que provoquem maior reflexão intelectual.

A exposição narcísica e o consumo dos corpos afetam diretamente a autoestima de alguns e ampliam consideravelmente os perigos de atentados à dignidade pessoal de outros através do cyberbullying, resultando em graves perigos. Isto fez surgir a expressão fear of missing out ou “medo de ficar de fora”, pois de acordo com especialistas, as redes sociais viciam tanto quanto o álcool e o tabaco, levando jovens e adultos a desperdiçarem horas de suas vidas em desnecessárias atualizações de status em suas plataformas de predileção.

Tal estudo revelou que os efeitos do consumo descontrolado de redes sociais não se limitam somente ao gasto de um tempo que poderia ser dedicado a outras tarefas. Mais do que isso: se não tratada, a adição à Internet resulta em prejuízos emocionais e significativos.

Porém, a despeito de já estar sendo tratada como uma questão de Saúde Pública, o uso das redes sociais não deve ser visto como o grande vilão do século XXI, até agora. Apesar das fakes e das frivolidades, durante a pandemia as mídias sociais e videochamadas possibilitaram o contato entre familiares que se encontravam distantes e isolados, e propiciaram o envio de ajuda a quem precisava de socorro, situação que se repetiu em outras tragédias como resgates de pessoas isoladas por enchentes ou envolvidas em acidentes.

Também são muito úteis as redes sociais profissionais, como o LinkedIn, onde preciosos currículos esperam por avaliações e propostas. E não podemos nos esquecer dos bancos de sangue e de órgãos, que utilizam as redes para buscar doadores e salvar milhares de vidas todos os anos.

Assim, que passe bem longe de mim qualquer ideia de controle ou censura. Que impere o bom senso. Que os adultos se eduquem e que eduquem-se todas as crianças. Que elas e os jovens sejam alertados aos perigos da exposição e do bullying. Que vejamos na moderna tecnologia da comunicação, um instrumento de integração entre os homens. E não o desenvolvimento de mais uma estrutura escravocrata. Que façamos bom uso de tudo. A começar pelos nossos olhos.