MEU COVID, MINHA PANDEMIA, MINHA VIDA

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COLUNISTA – LUIS BOGO POETA /ESCRITOR

Acometido de inesperada sensatez (considerando-se que durante mais de cinco décadas eu e a prudência nunca fomos íntimos, tampouco desenvolvemos grande amizade), resolvi que ao uma vez na vida, exatamente agora, eu seria obediente aos protocolos estabelecidos a fim de evitar que a própria vida se abreviasse bruscamente, permitindo assim que eu possa voltar, quem sabe em algum amanhã distante, à minha prazerosa e inata desabituação. Hoje, mascaro-me quando o ambiente e a situação solicitam-me. E, mesmo assim, sinto o cheiro do pânico e o triste aroma do luto bem próximos às minhas narinas. Estou ilhado e sou um pedaço de máscara cercado de vírus por todos os lados. Sinto o vírus da incerteza roçar as palmilhas dos meus pés a cada pedra que piso na calçada. Imagino o vírus da desesperança a zombar da minha aflição enquanto me espreita por detrás de um poste. Conjecturo que o vírus do medo saltita invisível pelo teclado do caixa eletrônico e brinca de gangorra nos trincos das portas; que descanse nos puxadores das gavetas e se equilibre ou deslize sobre polidas maçanetas. Ouço o riso escarnecedor do vírus do desgosto a entrecortar um choro abafado no corredor do hospital. Ou surgir, impertinente e gozador, entre os mudos lamentos dos velórios virtuais, para depois pairar dissimulado e invisível sobre o portão do cemitério.

Corona maledetta a multiplicar coroas de flores sobre corpos de jovens e de outros coroas. Ouço lamentações de quem já não sente os sabores da fruta e da carne, porque o vírus ladrão lhes levou o paladar. Pressinto o vírus da mortificação a agasalhar-se cínica e indistintamente entre nós de gravatas e dobras de cueiros.
Eis este vírus que não é meu, que quer que eu seja dele, que passa ventando próximo às minhas mucosas, ávido por se hospedar em minhas células para me asfixiar e devorar. A pandemia não é minha, mas a minha visão da pandemia é única, particular. Vejo na multidão de mortos o estímulo à solidão, a práticas solitárias de meditação que acabam por me intoxicar de reflexões. É o vírus da dúvida que gera questionamentos metafísicos e materiais: “ onde, agora, comprarei pão, leite, cigarros, vinho e caixão”? O vírus invisível tornou mais evidente o estado de solidão das almas. Dificultou encontros, impossibilitou abraços, demonizou o beijo, o toque, o sexo.

Hoje, o amor deve ser manifestado à distância, a solidariedade se prática à distância. Doações são enviadas pelo correio ou pela Federal Express. A Pandemia que eu vejo inventou a “esmola delivery”.E assim, também, se prestam as condolências. Diante da catástrofe, sistematicamente turbinada pela inépcia e insensibilidade de alguns governantes e de seus cordeiros ignorantes, já nos é roubado o direito ao abraço consolador, ao ombro e ao colo amigo. E para que a lágrima não umedeça a máscara, é necessário chorar sozinho.

Em “O Amor nos Tempos do Cólera”, Gabriel García Márquez conta a história de Florentino Ariza e Fermina Daza, que aguardaram 51 anos, 9 meses e 4 dias até se casarem e ficarem presos num navio, subindo e descendo o rio Amazonas, até que pudessem desembarcar em um porto seguro, ainda não atingido pela epidemia de cólera. Ficção, mas uma ficção que nos revela dois aspectos fundamentais para entendermos a vida: o primeiro é a certeza da nossa frágil efemeridade; o segundo, é que havendo amor, puro e verdadeiro amor, como aquele que imaginamos só serem encontrados nos livros, ele será encenado mesmo tendo como pano de fundo um cenário de morte.

Estejamos atentos, então, para situação aterradora que se nos apresenta, e lembremo-nos das reflexões de Florentino e Fermina, relatadas assim por García Márquez: “bem diferente teria sido a vida para ambos se tivessem sabido a tempo que era mais fácil contornar as grandes catástrofes matrimoniais do que as misérias minúsculas de cada dia. Mas, se alguma coisa haviam aprendido juntos era que a sabedoria nos chega quando já não serve para nada”. Assim, neste período existencial repleto de carências, reservarei um recanto em mim para que seja preenchido por uma dose de sabedoria e uma porção de paciência, até que o átrio do meu coração perceba é chegado novamente o tempo do encontro e da alegria.

NOTA

A partir de hoje, o poeta e escritor Luís Bogo passa a fazer parte da equipe de colunistas do nosso portal de notícias e entretenimento. É autor de 7 livros de poemas, crônicas e prosa poética já publicados e de outros dois aguardando impressão. Trabalha como ghost-writer, redigindo trabalhos literários ou acadêmicos. Aqui, terá liberdade discorrer sobre questões da atualidade ou simplesmente dividir suas impressões e percepções poéticas. Contatos com a coluna podem ser enviados a bogoluissergio14@gmail.com.