MELODIAS DA DIVINA SOLITUDE…..

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texto : Luís Bogo

Num incerto momento, em total solitude, absorto em pensamentos que jamais imaginei aonde me levariam, sou misteriosa e gentilmente transportado a milênios de distância, onde começo a sentir o quanto é bom perceber que estar sozinho não necessariamente significa solidão ou sofrimento, mas uma chance de mergulhar na amplidão, nos mistérios do universo indecifrável que se situa entre o fato de nascer e a inexorável certeza de morrer.
Em “Aforismos para a Sabedoria da Vida”, o filósofo Arthur Schopenhauer afirmou que “a solidão concede ao homem intelectualmente superior uma vantagem dupla: primeiro, a de estar a sós consigo mesmo; segundo, a de não estar com os outros”. Disse, ainda: “se não gostamos da nossa própria companhia, buscamos refúgio em outras pessoas”.
Por isso é importante que saibamos valorizar a nossa própria companhia, que travemos diálogos íntimos com o nosso eu, pois ao ser transformada em indolores reflexões, em solitude, a nossa solidão se transforma em celeiro e estufa de ideias que tendem a prosperar e nos dar sombra, flor e frutos.
A solitude é a madrinha da criação. Dizem, mesmo, que Deus estava em sua trina solitude quando resolveu criar algo que lhe encantasse os olhos ou lhe aborrecesse os ouvidos, talvez para não ficar de papo para o vácuo, o que certamente viria a lhe causar uma sensação de infinito e eterno vazio.
E assim, pela trina e divina suficiência da Solitude, teríamos sido criados e colocados neste mundo onde antes não havia nem mesmo céu nem mesmo mar, muito menos peixes para pescar e depois multiplicar, mas apenas o Verbo e nenhum complemento. Este seria, talvez, o primordial e mais enérgico exemplo, de que o contraponto à neurótica solidão pode ser a saudável e criativa solitude.
Sabemos que o vazio não é um manto fantasmagórico que paira sobre as coisas, mas a ausência de alguma coisa que deveria estar dentro de uma outra coisa. A ‘coisa solidão’ é o vazio a ser combatido por esta caixa que chamamos ‘eu’, e neste sentido, a solitude é um caminho para que nos livremos dos ruídos do mundo, dos ruídos que abundam em nosso entorno, e nos aprofundemos em nós mesmos para nos tornarmos cada vez menos influenciáveis ou mesmo dependentes de conceitos e opiniões massificadas e pasteurizadas pelas mídias em geral, oficiais ou não.
Estar sozinho não pode ser fator de tédio, pois o tédio é o cansaço de si mesmo. Gera a expectativa de encontrarmos no outro as respostas e soluções que podem, muito bem, estar dentro de nós mesmos, caso mergulhemos no exercício do autoconhecimento, pois da mesma forma que ‘saco vazio não para em pé’, corpo vazio não se sustenta e alma vazia não se eleva.
Solidão é olhar para o céu e nele perceber apenas os sopros de intermináveis ausências e infinitas distâncias, sentindo as dores da frustração.
Solitude é imaginar como as estrelas aprenderam os passos da dança secreta que realizam nas profundezas do universo, e nos encantarmos com o balé cósmico e com a nossa própria imaginação. É como ouvir o som da lagarta a devorar as folhas da amoreira para tecer a seda que, depois, se tingirá de azul para compor o céu.