INOCÊNCIAS

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TEXTO - LUIS BOGO

Por motivos diferentes, nos últimos dias os jornais e telejornais foram preenchidos por notícias de crimes das mais diversas espécies e pela consequente caçada aos criminosos. Houve a perseguição e a morte de Lázaro Barbosa, réu confesso de diversos roubos e assassinatos, além de acusado em alguns tantos outros. Também teve andamento a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga a ação do governo e de alguns de seus integrantes no combate à pandemia provocada pelo Coronavírus.

Fosse capturado vivo, sob o aspecto jurídico seria difícil considerarmos Lázaro inocente em alguma das acusações que pesavam sobre ele, posto que inocência é a ausência de culpa, e culpa pressupõe autoria. No caso dele, muitas vezes pública, notória e triste autoria.

Já na CPI da Covid-19, muitos ainda estão sendo investigados sobre as ações e omissões do governo federal no combate à pandemia. Além das acusações de corrupção nos processos de aquisição das vacinas e contratação de oxigênio hospitalar, os parlamentares investigam também as posturas negacionistas e a disseminação de notícias falsas que, de forma nefasta, colaboraram para que o Brasil já contabilize mais de meio milhão de mortos, vítimas da doença.

Conforme já noticiado em outros veículos, nas últimas três semanas o próprio Presidente da República, Messias Bolsonaro, teria cometido 10 crimes relacionados à situação, infringindo os artigos 268 e 132 do Código Penal; respectivamente: “infração de medida sanitária preventiva” e “expor a vida ou a saúde de um terceiro a perigo direto e iminente”, como, por exemplo, durante solenidades em Jurucutu e Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, fez uma menina de dez anos retirar a máscara de proteção que utilizava ou quando retirou a máscara de uma criança de colo para fotografias. (“teria” cometido – o condicional deve-se a sermos todos inocentes até prova em contrário).

Tanto a morte de Lázaro Barbosa quanto o descaso e as denúncias de corrupção de autoridades deixaram explícitos não apenas dois, mas três exemplos de desrespeito vida humana.

Primeiro, o desrespeito básico e sumário: Lázaro matava pessoas.

Segundo exemplo: autoridades ou não, pessoas inescrupulosas aproveitam-se de uma situação de calamidade para obter vantagens pessoais indevidas, em total desrespeito à memória dos mortos e de suas famílias. Em total desrespeito à vida de pessoas que ainda podem vir a ser infectadas ou que teriam sobrevivido, se bem orientadas ou convenientemente assistidas.

Terceiro: A morte do bandido foi comemorada de forma acintosa por policiais envolvidos na sua captura e pelo “messias” citado anteriormente, que declarou, por meio de suas redes sociais, “CPF cancelado”, jargão policial para execuções.

Sobre este último fato, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-GO, Roberto Serra da Silva Maia, declarou: “(…) Poderia ser a pessoa encarnada na forma de demônio, mas a gente não pode celebrar uma morte. Porque quando você celebra uma morte, você banaliza o ser humano completamente”.

Perdoem-me por me alongar tanto neste artigo, pois até aqui só discorri sobre culpa, enquanto a intenção inicial era me ater à palavra “inocência”, cujo significado vai além da mera isenção de culpa.

Pureza de alma, candura, candidez. Seja qual for o sinônimo que se encontre para definir inocência, jamais deveremos ceder ao impulso de comparar a condição de inocente à condição do ingênuo.

Inocente é o adjetivo que define o sujeito “não nocivo”, ou seja, o que não causa mal. Por outro lado, o termo ingênuo pode até ser utilizado de forma um tanto pejorativa, para descrever a pessoa que desconhece coisas ou situações que já deveria conhecer, por experiência própria ou por ser assunto de conhecimento público.

A inocência pode me ter feito acreditar, um dia, que “agora eu era herói e o meu cavalo só falava inglês”, e que “a noiva do cowboy era você, além das outras três”. Porém, se esta crença persistisse ao longo de alguns anos e décadas, a inocência teria se transformado em infantilidade, fazendo-me ainda crer em relatos do papai Noel e em milagrosas curas por pajelanças ou placebos.

Mas, o entendimento do estado de inocência pode gerar um complexo embate entre duas questões paralelas que jamais serão entrecortadas nem se encontrarão no infinito: a inocência é subjetiva ou subjetiva é a ótica da inocência?

Enquanto pureza, a inocência deve ser cultivada ou resgatada em nós. A ingenuidade deve ser combatida com as armas da verdade e da boa informação. Precisamos nos nutrir com palavras puras, Belas Artes e boas letras, pois só assim não seremos ingênuos ao ponto de permitir que mentiras, falsidades e violências sequestrem a chama de inocência que ainda nos faz acreditar em um futuro mais fraterno, mais solidário: em um futuro construído com menos sangue, menos lágrimas, menos armas e mais oxigênio.

Letícia Kistner Psicóloga – CRP 12/16871

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