INFLAÇÃO E CARESTIA

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TEXTO - LUIS BOGO

Nos últimos meses, o brasileiro foi obrigado a resgatar ao vocabulário uma triste palavra que, durante um bom tempo, caíra em desuso: carestia.

Carestia é a escassez de determinado produto e, por extensão, o encarecimento do custo de vida.

A implacável lei da oferta e da procura estabelece que quando a oferta é pequena o preço se eleva e, portanto, escassez e inflação andam de mãos dadas, afetando a vida de quase todos, especialmente do assalariado e dos menos favorecidos, que formam a base da pirâmide econômica.

Levantamentos recentes demonstram que 50% da riqueza deste País está nas mãos (ou nos bolsos, bolsas e cofres) de apenas 1% dos brasileiros. Para estes, pouco importa se uma dúzia de ovos custa R$ 8 ou R$ 80. Sempre poderão se fartar com ovos mexidos no café da manhã e ricas omeletes no almoço. Que dizer então da carne? A nossa velha e pobre carne fraca fica cada vez mais fraca, caso não possamos consumir uma boa carne: seja de frango, porco ou vermelha.

Neste país onde parece que todos são quase iguais perante a Lei, parece-nos, também, que os brasileiros são cada vez mais desiguais diante do caixa do supermercado. De 2020 para 2021, o salário mínimo passou de R$ 1.045 para R$ 1.100,00: aumento de 5,26%, pelo INPC. De março de 2020 (início da pandemia até o mês passado, junho de 2021), O IGP-M da Fundação Getúlio Vargas apontou inflação de 41%.

Enquanto 99% da população faz malabarismos monetários para financiar a refeição diária, o 1% restante tem a “algibeira cheia que nem ovo”. Mas esta situação de escalada inflacionária, especialmente no que se refere à alimentação, não se deve apenas a uma situação de carestia provocada por entressafras ou quebra de produção agrícola por motivos naturais. Grande parte do problema passa pela ganância e por criminosas especulações.

O preço das commodities (matérias-primas agrícolas ou minerais, como o minério de ferro e o petróleo) sempre foram determinadas pelas bolsas de mercadorias internacionais e têm seus preços estabelecidos em dólar. Desta forma, ao grande produtor de gêneros básicos, como a soja, o milho e o arroz, pouco importa que o seu produto seja caro demais ao consumidor local (mesmo que ele tenha recebido ou ainda receba incentivos do Estado para produzir), porque ele tem o mercado externo à sua disposição.

Por que, então, vender o frango barato para o brasileiro se ele pode ser comercializado em dólares e petrodólares para Israel e os países árabes? Da mesma forma, é por isso que os grandes do agronegócio brasileiro comemoram quando o dólar vai às alturas, porque é do exterior que vem a maior parcela de seus lucros.

O cenário de pandemia agravou ainda mais a situação de desigualdade e escancarou a exploração mercantil que, por desrespeito à vida, sempre acompanhou as catástrofes, fossem elas naturais, sanitárias ou provocadas por disputas comerciais e belicismos.

A maldade vigente em alguns setores, habituados a banalizar a vida através da fome, da miséria e da precariedade de assistência aos socialmente desfavorecidos ganhou contornos macabros com a constatação de falcatruas na aquisição de medicamentos (alguns inadequados à situação) e mesmo de oxigênio para respirar.

Diante de tanta iniquidade, diante deste “novo normal” onde as anormalidades e imoralidades se multiplicam, não chega a nos causar surpresa a constatação de que muitos já não tenham força para protestar contra os centavos que têm de pagar a mais, dia após dia, por produtos básicos que necessitam para sobreviver.

E, do outro lado deste balcão, há quem ria e tripudie, enquanto palita seus dentes de ouro e coça a inchada pança.