INDIFERENÇA E DESPREZO……

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texto – luis bogo escritor ,poeta e colunista .

Por conta de situações dramáticas que experimentamos nos dois últimos anos, muitas vezes ouvimos as palavras empatia, solidariedade e fraternidade. Na maioria delas, infelizmente, reclamava-se da ausência ou não manifestação destes sentimentos por parte de pessoas que poderiam contribuir para a redução do sofrimento de milhares de famílias atingidas pela pandemia.

Outras situações aviltantes e totalmente alheias ao Coronavírus, continuam a manchar esta civilização que há 21 séculos se diz cristã. Milhões de miseráveis morrem de fome em várias partes do mundo e outros milhões ou milhares disputam ossos e restos de comida em lixões, numa guerra animal com urubus e gabirus.

A solução deste problema ultrapassa os campos da economia e da política até alcançar e invadir as fronteiras da ética, pois no sentido contrário temos bons exemplos de governos de vários matizes – do centro-direita à centro-esquerda – que são capazes de alimentar suas populações a despeito de qualquer viés ideológico, como acontece nas monarquias parlamentaristas nórdicas ou na Austrália, e em diversas sociais-democracias espalhadas pela Europa.

Esses dois últimos anos no Brasil evidenciaram a face obscura de uma elite pouco interessada em praticar os citados valores cristãos; mas que, ao contrário, debocha da situação e se mostra insensível ao sofrimento alheio. São o desprezo e indiferença em relação à vida humana que ficam patentes em declarações cujas lembranças nos causam dor:

“Essa é uma realidade, o vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Tomos nós iremos morrer um dia.” (março/2020). Em abril do mesmo ano, seguindo o mesmo desprezível raciocínio: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, disse, Jair Messias Bolsonaro.

Naquele mesmo mês, o Messias que não faz milagre fez outra declaração na mesma linha que merece ser lembrada: “Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas. Mas é a vida. Amanhã vou eu”.

Porém, agora, quando os neurônios de seus intestinos não conseguem digerir os camarões que engole ‘com casca e tudo’ ou se contorcem em cólicas desesperadas ao pensar em lulas, posta fotos em leito hospitalar buscando junto à população uma empatia que nunca demonstrou por ninguém.

Citando Freud, a psicanalista Fabiana S. Pellicciari, da instituição psicanalítica TRIEP – Trabalhos de Investigação e Estudos em Psicanálise, de Jundiaí, SP – escreveu: “Para Freud, o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença. Tanto o ódio como o amor implicam o estabelecimento de um laço com o outro, de pessoas a quem depositamos algum tipo de sentimento. Já a indiferença é, ao contrário, uma tentativa de rompimento deste laço, o que entra em sintonia com esta tentativa de não sentir e, especialmente, de não mostrar para o outro que ele fez algo que nos tornou vulneráveis. A busca seria de uma sensação de superioridade por uma espécie de ideal em não se mostrar afetado”.

Mas, apenas para não me ater à indiferença institucionalizada e ao desprezo de governantes em relação ao povo menos favorecido, preciso lembrar que o amor, assim como a planta – desde a semente até o surgimento do fruto, seja pitanga ou pimenta – carece de atenção diária, de cuidados constantes.

Que neste novo ano, não venhamos a permitir que nossos corações se tornem uma massa empedernida pela cal do desprezo e da indiferença, pois mesmo quando não matam, tais sentimentos carregam e provocam dor.