IDENTIFIQUE-SE OU DEVORE-SE

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TEXTO LUIS BOGO

O lado confortável deste ofício literário é não precisar ser científico, mas apenas expressar opiniões e sentimentos baseados em observações – não necessariamente metódicas –, e em experiências próprias ou alheias, por vezes até caóticas.

Por isso, sinto-me à vontade para falar sobre identificação, pois as coisas com as quais me identifico são reflexo do meu eu, que é igual a um + muitos (dos quais, muitos ainda conheço superficialmente, só de passagem).

Assim, posso ser bucólico e suavemente colorido como os campos floridos de Monet e Manet. Furioso como o gotejamento neurótico que preenche as telas de Pollock. Desacorçoado como o desorelhado Van Gogh em seu autorretrato. Enigmático como Magritte; ou até mesmo divertido e infantil como a “criança pulando carniça”, surgida dos pincéis de Portinari ao lembrar Brodowski.

Minha identidade é a minha essência. E eu preciso saber quem realmente sou para me posicionar adequadamente diante da realidade ou, pelo menos, saber qual dos meus “eus” está atuando naquele exato momento. É apenas através das minhas experiências e do autoconhecimento, aprofundado em permanente reflexão, que vou descobrindo quais são os meus reais desejos e como expressá-los socialmente, de modo que representem, de maneira fiel, o ser singular que verdadeiramente sou.

Minha identidade corre risco na medida em que há uma fissura na autoconfiança e no amor próprio. Minha identidade vai para o brejo quando eu não me basto por mim mesmo e busco, em corpos e modos alheios, motivos que possam me fazer admirado ou desejado. Sim: a origem da identidade é narcísica e, talvez, possa tender ao hedonismo em alguns momentos.

Uma identificação mais exata de mim mesmo, permite que eu não desperdice meu tempo em situações onde o meu desejo se sobreponha à cruel realidade; pois, se isto ocorrer, o laço emocional que vier a ser criado com o meu objeto de desejo impedirá que eu ame a mim mesmo, trazendo-me dolorosos transtornos. Todavia, resta-nos o consolo de que desejos são sentimentos transitórios, substituem-se naturalmente por outros e outros e outros; e podem submeter-se a longos atrasos, adiamentos ou mesmo cancelamentos.

Porém, é preciso que saibamos distinguir este processo de identificação de si próprio, de busca da própria identidade, da identificação com o próximo, a chamada empatia que é, em poucas palavras, sentir o que o outro sente.

Para exemplificar melhor o conceito de empatia, talvez fosse melhor voltarmos ao passado, quando o amor era identificado pelos toques das digitais na pele; ou a emoção se denunciava e se identificava pela leitura da íris…  – “quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar”… –, diz a canção. Esta empatia, capaz de alterar o tamanho das pupilas é sinal de profunda identificação. E, não será qualquer equipamento eletrônico o mais indicado para medir sua intensidade.

Enfim, a identificação com o outro é igual a um espelho em Raio – X: em caso de perfeita empatia, não vejo o meu rosto na imagem do outro; mas fragmentos. Talvez em um belo caleidoscópio do que poderia ser minha própria alma, se fosse passada a limpo e arte-finalizada…

Criança Pulando Carniça – Óleo sobre tela – Cândido Portinari