FOME NÃO É OBRA DE FICÇÃO…..

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TEXTO – LUIS BOGO ESCRITOR , COLUNISTA E POETA

Crédito da Foto: ©FAO/Giuseppe Bizzarri /Legenda da Foto: Moradores de Recife (PE) disputam restos de comida com as ratazanas

Quem está habituado em ler minhas crônicas poéticas talvez venha a se espantar com o tema chocante e desagradável que abordo hoje: a fome. Está aí, nas ruas, doendo em nossos olhos e almas e, principalmente, doendo no estômago de milhões de brasileiros que não têm o que comer.

A manchete do portal UOL nesta segunda-feira, 29/11/2021, foi: “Moradores de São Paulo desmaiam de fome em filas de postos de saúde”. No subtítulo da matéria, outra informação aterradora: “Casos de pessoas que vão a UBSs famintas começaram a aparecer há 3 meses”.

É simplesmente um descalabro que isto aconteça num país que deve produzir um total de 288 milhões de toneladas de grãos durante as safras 2021/2022, segundo levantamento da Conab – Companhia Nacional de Abastecimento, com informações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Ainda de acordo com a Conab, “as condições climáticas adversas registradas durante o cultivo da segunda safra afetaram as estimativas de produtividade nas lavouras”. E mesmo assim, mais uma vez, a safra será recorde.

O descaso do governo com relação ao assunto é evidente. Do fim do paliativo auxílio emergencial à criação do “paliativo do paliativo” Auxílio Brasil, 19 milhões de brasileiros, 9% da população, passaram fome. Este percentual nos leva a tristes números que não eram registrados desde o início deste século, quando tiveram início os programas de transferência de renda.

Este último dado está no “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”, produzido pela Rede PENSANN – Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, publicado em março deste ano.

Criada em 2012, a PENSANN se identifica como uma entidade “que congrega pesquisadoras (es), estudantes e profissionais de todo o país na forma de uma rede de pesquisa e intercâmbio independente e autônoma em relação a governos, partidos políticos, organismos nacionais e internacionais e interesses privados”.

Neste mesmo trabalho, ficou constatado que, ao final do 2020, “do total de 211,7 milhões de pessoas, 116,8 milhões conviviam com algum grau de IA (leve, moderada ou grave. Destes, 43,4 milhões não contavam com alimentos em quantidade suficiente para atender suas necessidades (IA moderada ou grave). Tiveram de conviver e enfrentar a fome 19 milhões de brasileiros”. Apenas para esclarecer, o “IA” citado no estudo significa “Insuficiência Alimentar”.

Desta forma, enquanto os barões do agronegócio festejam e dão glória ao dólar nas alturas, pois enriquecem ainda mais com as exportações de commodities, o povo sofre os impactos do aumento dos preços do arroz, do feijão, do gás de cozinha e até de ossos, ossadas (que passaram a ser classificadas como de 1ª., 2ª, e 3ª., a depender de quantos fiapos de carne estejam nelas pendurados).

Assim, insuficiências atrás de insuficiências – vale lembrar que no pico da pandemia, na capital do Amazonas, pulmão do planeta, muitos morreram por falta de oxigênio porque o governo não providenciou respiradores –, o povo sente o estômago roncar de fome e alguns mais corajosos têm que suportar todo e qualquer embrulho no estômago ao disputar com os gabirus os restos de comida destinados aos lixões.