ENERGÚMENOS E SUTILEZAS

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TEXTO - LUIS BOGO ESCRITOR/POETA E COLUNISTA

No princípio era o Verbo. E o verbo se fez carne… Importante dizer que o significado primordial de “verbo” é palavra. E, então, assim que o verbo se fez carne, passou a ser acompanhado pelos adjetivos e predicados que indicam suas qualidades e características: boa ou ruim; branca ou vermelha; magra ou gordurosa; dura ou macia. No sentido semântico, o verbo contém as noções de ação ou do desenrolar das mesmas, podendo referir-se a atitudes intempestivas e violentas – como gritar, correr, brigar – ou a atos delicados como ninar e acariciar.

Todo verbo é palavra, mas não nos cabe agora discutir se as coisas surgiram antes ou depois de serem batizadas, verbalizadas. Poderíamos supor, por exemplo, que num instante qualquer da eternidade, pendurada em galho verdejante, a fruta escutou:  “– Tu te chamarás maçã” – ou imaginar, então, que em algum momento anterior, para que ela surgisse do nada, foi dito: “– Faça-se a maçã”!

O fato é que todas as coisas que existem têm uma palavra que as definem: um nome. Mesmo as coisas abstratas, as coisas que não vemos ou não enxergamos; as coisas que não tocamos mas percebemos, têm um nome. Assim, através das palavras, tudo ganha peso e consistência, dureza ou maciez.

As pessoas, de acordo com seus temperamentos, com as rugosidades ou delicadezas de suas almas, também podem ser classificadas através da consistência das palavras que empregamos para descrevê-las. E conhecer as pessoas faz com que venhamos a conhecer novas palavras, de modo que possamos situá-las melhor no meio social ou no nosso próprio imaginário.

Após este longo preâmbulo, vou discorrer sobre duas palavras que me despertaram curiosidade tão logo as ouvi.

A primeira é “energúmeno”, muitas vezes ouvida, ainda nos tempos de primário, quando algum coleguinha fazia algo de errado. Não foi necessário muito esforço para entender, após prestar atenção a quem era dirigido, que aquele palavrão significava ignorância, idiotice, estupidez, estultícia, boçalidade e incompetência. Mais tarde, após me ilustrar um bocadinho mais, descobri que o termo também pode ser usado em relação à pessoa obsessiva, exaltada, desatinada.

A segunda, a mim dirigida por um amigo, também me soou mal aos ouvidos quando fez tremer meus tímpanos pela primeira vez: ele “xingou-me” de “nefelibata”, recusando-se a dizer o que significava. Fui ao dicionário e descobri, com alívio, que aquela palavra apenas revelava um aspecto evidente da minha personalidade, pois são chamados nefelibatas aqueles seres que parecem “andar nas nuvens”, muitas vezes alheando-se do mundo real para viverem seus sonhos, fantasias e idiossincrasias.

De qualquer forma, além do significado intrínseco, no mundo das palavras devemos considerar a forma e o momento como elas são pronunciadas.

Isto posto, jamais me importei ser chamado nefelibata, embora pejorativamente o termo possa se referir a alguém alienado. Muito mais chateado eu ficaria se chamado fosse de energúmeno, pois não há boa vontade, sutileza ou eufemismo que alivie o peso de tamanho palavrão.

Energúmenos são energúmenos e sempre serão energúmenos. Zurram e relincham sempre, onde quer que estejam. Sem sutilezas.