EM NINHO ESTRANHO

POR : LUIS BOGO COLUNISTA ESCRITOR E POETA

De repente, fizeram-me lembrar do filme “Um Estranho no Ninho”, obra-prima de Milos Forman, adaptado de um romance de Ken Kesey e, louca e maravilhosamente, protagonizado por Jack Nicholson e Louise Fletcher. O filme foi o grande vencedor do Oscar de 1976, que ainda levou a estatueta da categoria roteiro adaptado. Ator, atriz e diretor, também foram premiados.

            O filme conta a história de um sujeito com histórico de agressão e violência que, para escapar da prisão, acaba sendo transferido para um hospital psiquiátrico, onde os pacientes são tratados sem o menor sentido de humanidade ou compaixão.

Ao pensarmos naquele “ninho” repleto de pessoas intelectual e emocionalmente instáveis, submissas a um sistema opressor, podemos refletir que a obra é apenas um retrato hiperbólico da realidade social vigente; pois, antes mesmo de se ultrapassar certos muros e limites, antes mesmos de sermos aninhados no desaconchego de um hospício, acabamos por eleger nossos próprios ninhos, criar nossas próprias bolhas e, aqui, como elemento de ilustração, aproveito para reproduzir parágrafo que já publiquei em texto anterior:

“ (…) não nos custa lembrar que, ao sermos gerados, permanecemos por nove longos meses numa bolha terna e morna, onde nada nos faltou. Ao sairmos de lá, perdidos no espaço por não mais tatearmos com mãos e pés as paredes da bolha, começamos a criar bolhas paralelas, que acabam por tomar a forma do nosso quarto, do círculo familiar, do ambiente de trabalho ou do clube da esquina… bolhas que interagem entre si ou não, mas que nos fazem sentir contidos, ao mesmo tempo que passamos a nos considerar senhores de todas essas bolhas que simplesmente habitamos”.

Nestes ninhos próprios, onde nos recolhemos, abrigamos, dormimos ou para o qual eventualmente fugimos e nos entocamos, estabelecemos um padrão de conforto pessoal, individual, inalienável. Também determinamos os limites de tolerância ou desobediência às nossas próprias regras de comportamento e convívio. Nesses nossos ninhos admitimos, aceitamos e acolhemos a quem bem nos apraz. E é este o ponto crucial relativo aos ninhos: a aceitação.

Sentir-se aceito é necessidade inerente ao ser humano. E, atualmente, esta necessidade torna-se mais evidente pela multiplicação de grupos formados através das redes sociais, onde proliferam frases feitas (comumente adornadas por flores e corações), e enviadas a pessoas com as quais nunca se trocou sequer um olhar ou um aperto de mão. Mas, paliativamente, fazer parte daquele grupo e receber um positivo sinal de curtição já é massagem suficiente para egos fragilizados.

Trata-se, sim, de uma solução paliativa, pois a maior parte destes grupos não apresenta profundidade alguma: as manifestações de afeto costumam ser formais ou vazias, e as manifestações de revolta são desabafos inconsequentes, incapazes de provocar mudanças no comportamento coletivo ou uma reflexão mais profunda que se materialize nas urnas eleitorais, por exemplo. O exemplo anterior, de postura sociopolítica, pode ser estendido a todas as áreas, porque estes agrupamentos compulsórios acabam por engessar conceitos artísticos, culturais e até mesmo nossos ideários subjetivos e nossos sonhos, eliminando a possibilidade de vida individual e liberdade de pensamento.

Porém, no sentido inverso, saindo do mundo virtual e voltando à realidade, algumas vezes a dinâmica social acaba por nos colocar em ninhos estranhos, em clubes aos quais não gostaríamos de nos associar, em festas ou locais onde, apesar de estarmos cercados, nos sentimos solitários e distantes.

Se a falta de sintonia ou conexão humana for motivo para a depressão, cabe a cada um refletir e buscar inserir-se apenas nos grupos que supram suas necessidades individuais e que não afrontem suas próprias convicções, pois o pertencimento verdadeiro vai muito além de estar presente numa festa, de aparecer numa foto ou participar de uma reunião cujo tema não acrescente nada à sua vida.

É muito ruim sentir-se “um estranho no ninho”.

E, caso isto aconteça, devemos nos mover para transformar o ninho em questão. Mas, o melhor é evitarmos que a nossa alma procure repouso em ninho estranho, onde a brisa parece sufocante, a música soa ruim e o sorriso estampado é falso.

LEGENDA DA IMAGEM Capa do livro "O Pássaro Pintado", de Jerzy Kosinski, no qual o autor aborda com maestria questões relativas à inclusão social e pertencimento

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