DEVANEIOS…..

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Texto Luis Bogo Escritor Colunista e Poeta

Eu devaneio, tu devaneias, ele devaneia. Vós devaneais, eles devaneiam.

Sim, não se espante, pois em algum ou vários momentos da vida, todos nós devaneamos, deixando que o nosso pensamento engravide de sonhos, de inofensivas ilusões, de imagens de maravilhas e encantamentos.

Não vamos divagar agora sobre os estados de insânia, demência ou a respeito de alucinações e desatinos. Falaremos apenas da doce imaginação, de pensamentos profundos que, por breves ou prolongados instantes nos afastam da ingrata, ruidosa e gris realidade.

Vamos tratar do devaneio que nos pinça e alça do palco cotidiano, onde encenamos personagens socialmente apresentáveis, para, de repente, nos colocarmos no terreno da fantasia, num plano meio hipnótico, talvez, que pode ter se originado numa gota de orvalho que “de leve oscila e cai como uma lágrima de amor” ou no biscoito de araruta que, ao ser cozido, exala aquele aroma que nos carrega de volta à infância, ao colo da vovó.

Vamos nos prender a devaneios que se soltam das entrelinhas dos romances e dos pontos que marcamos com alfinetes sobre o mapa, liberando a nossa imaginação para que ela navegue por ensolaradas ilhas gregas, pelos serenos mosteiros do Tibet, pelas lendárias highlands; pelos mistérios do Egito; pelos santuários de borboletas do México, aos rios da China ou vinhedos da Argentina, permitindo-nos viajar sozinhos ou em boa companhia.

Assim como um sonho noturno, o devaneio constitui a realização de um desejo. E, partindo-se do inequívoco pressuposto de que existe vida antes da morte, somos inesgotáveis poços de desejos que podem, de repente, nos fazer sonhar acordados enquanto olhamos para um solitário cipreste ou quando escutamos a sinfonia das ondas do mar e a percussão de suas espumas a beijarem areias e rochedos.

O saudável devaneio é o momento de ausência que nos consentimos. É a licença poética que concedemos ao nosso tempo de viver. É o momento em que levitamos mesmo com os pés presos ao chão. Quando permitimos que nosso olhar se fixe no infinito até que enxerguem distantes órbitas ou, simplesmente, a órbita do olhar que brilha numa outra face colocada sorridente e serena diante de nós.

Devaneio não é utopia. Enquanto a utopia pode ser colocada como algo que se localiza no âmbito do irrealizável, o devaneio realiza-se em si mesmo, traz o conforto do sonho que se sabe sonho e que, mesmo assim, perpetua o instante e concede-lhe a graça da eternidade.

Devaneio não é delírio ou perda de razão, mas pulsão vital.

Não fosse movido por devaneios, Vinicius não teria se referido às suas musas, dizendo: “Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços // E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado”.

Se estes versos servem aos amores, servirão a tudo na vida.

Se os sonhos noturnos nos fornecem alimento para enfrentar as manhãs, o devaneio que nos consentimos e permitimos – a qualquer hora do dia –, nos traz alimento para a vida inteira, mesmo porque podem ser ressuscitados – ou ressuscitarem-se – a qualquer momento.

O filósofo Antônio Cícero escreveu e sua irmã Marina Lima, lindamente cantou: “Você me abre teus braços, e a gente faz um país”. – Das maravilhas, digo eu.

Perdoem-me, mas estou aqui para devaneios. Para ressuscitar e ser recrucificado.