CONTRATOS……

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TEXTO LUIS BOGO

Contratos são acordos geralmente firmados entre duas partes segundo os quais trocam-se bens por outros bens ou bens por serviços. Fosse a vida uma sucessão de certezas, seriam desnecessários os contratos. Mas, vicissitudes, imprevistos e desconfianças comuns ao mundo dos negócios tornam necessários estes procedimentos legais, embora deva prevalecer a máxima de que o bom contrato será aquele que satisfaça a ambos os lados.

Os contratos públicos, que envolvem o Estado, devem ser transparentes e proclamados, para que o cidadão saiba o que está feito com o dinheiro de seus impostos. Mas, ganância e desonestidades transformam os noticiários em festivais de escândalos provocados por contratos escusos, que nos aviltam, revoltam e trazem desonra a toda a humanidade: contratos nefastos que celebram a troca de milhares de vidas por sujas moedas para poucos, por exemplo.

Falemos, então, de outro tipo de contrato. Daquele acordo tácito que não precisa se consumar à primeira vista, mas cujas prestações ficam para se perder de vista. Falemos de um contrato que poderia prescindir de assinatura pois, a princípio, é um pacto firmado apenas por uma significativa troca de olhares que faíscam ao se cruzarem no espaço compreendido entre dois rostos, gerando a chama da paixão e aquecendo as almas com brasas de amor: o casamento. São convenções sociais que o formalizam cível e religiosamente, mas o casamento verdadeiro não é assinado com as tintas das penas e das esferográficas. É assinado com tintas psicodélicas e espirituais que nos tingem de virtudes e desejos.

O futuro é território da incerteza, mas sonhos são capazes de desafiar previsões, de desafiar todas as leis e, assim, ao contrário do que acontece na Física, onde polos iguais se repelem, no casamento duas incertezas se atraem para que se escape da incerteza, para que se crie um ambiente harmônico, de presumida e ideal felicidade, de felicidade incapaz de se afastar de nós tal como se afasta a linha do horizonte quando ousamos alcançá-la.

Casamento é comunhão de ideias e sonhos, é sereno contrato de completude, é contrato de abrigo mútuo e mútua ressureição, ressureição que se repete a cada manhã, a cada beijo e “bom dia”. Ressureição do que jamais morreu ou morrerá. Perfumado canteiro de amor-perfeito.

Mais sublime e nobre dos contratos, exige cuidadosos preparativos até ser formalizado com promessas de amor e fidelidade, em cerimônias festivamente celebradas de forma parecida por todas as religiões nos quatro cantos do mundo.

 No Japão, após prometer “proteger, ser fiel, confortar e consolar”, o noivo diz – “Chikai masu” – “Prometo”! Na Índia, os noivos dão sete voltas ao redor do fogo, de mãos dadas, enquanto trocam juramentos. Nas igrejas católicas e evangélicas, os votos são parecidos: aceito (nome) como meu legítimo esposo/esposa e prometo amar-te e respeitar-te na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias da minha vida, até que a morte nos separe”, até que se troquem os anéis de ouro enquanto se diz, mais ou menos assim: “– que esta aliança seja o símbolo puro e imutável do nosso amor”.

Materialização do amor, o casamento coloca os corações no ritmo do pas-de-deux de Tchaikovsky. Transforma banho de rio em nado sincronizado, afasta-nos do cálice da solidão, preenche a noite e dá sentido e clareza aos dias.

Reativa o paladar, resgatando à língua memórias de especiarias, trazendo novos sais ao que já pudesse parecer enfadonho e insosso. Recupera todos os sentidos. Traz mais beleza ao olhar, mais atenção aos ouvidos; mais sensibilidade ao toque na pele e aos toques da pele na pele.

Casamento é contrato de amor e o amor vence todas as guerras, como retratou Botticelli em um de seus quadros mais famosos, no qual Marte, o deus da guerra, aparece adormecido em sono profundo, do qual será despertado por sátiros a serviço de Vênus, a deusa do amor.

               O certo é que, seja na religião que for, a partir do dia em que proferir os votos – no interior de um templo ou sob a luz do luar –, todos os seus gestos serão para agradar a pessoa que aliciou sua alma. E por mais que ela procure descobrir e analisar de onde brota tanta emoção e devoção, jamais será capaz de decifrar estes mistérios, pois a essência de tais expressões estará envolta numa hermética nuvem de lirismo e poesia que somente aos poucos, como chuva benfazeja, derramará versos e cantigas que lhe aquecerão a pele e o ventre febril.