CALA-TE, INFIEL!

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TEXTO – LUIS BOGO

O “Sai de Baixo” foi um sitcom de muito sucesso exibido pela TV Globo entre 31 de março de 1996 e 31 de março de 2002. O programa popularizou a personagem “Magda”, a mais fina flor da estupidez: tão estúpida que só mesmo uma pessoa inteligente, talentosa e irreverente quanto Marisa Orth poderia interpretar. Ao proferir suas asneiras – dignas de um Bozo qualquer – era repreendida pelo marido Caco Antibes, interpretado por Miguel Falabella, que lhe berrava o bordão “Cala a Boca, Magda”!

            Agora, quando o Brasil celebra 199 anos de independência política, sua população está sendo bombardeada por séries intermináveis de ameaças, notícias falsas, ofensas e sandices proferidas e repetidas por exércitos de “Magdos”, alguns com mandato e outros como meros “paus-mandados”.

            No dia 7 de setembro de 1822 a liberdade abria suas asas sobre o Brasil, em termos, é claro, pois até chegarmos a esta democracia na qual ainda adolescemos, vivemos monarquias, ditaduras e tenebrosos períodos de exceção. Agora, invocando liberdade de expressão, alguns propagam tolices que chegam a ofender a população mais humilde e desfavorecida, a exemplo desta entrevista na qual o Presidente da República, referindo-se aos CAC’s (Caçadores, Atiradores e Colecionadores de armas), afirmou:

“O CAC está podendo comprar fuzil. O CAC, que é fazendeiro, compra fuzil, o 762. Tem que comprar é… tem que todo mundo comprar fuzil, pô. O povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Tem um idiota: ‘ah, tem que comprar é feijão’. Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar”.

Típica declaração de um pai que, ao que parece, não agradava seus pimpolhos oferecendo-lhes balas de menta, café ou hortelã, mas apresentando-lhes outras mais letais, que provocam danos maiores do que cáries em dentes-de-leite.

Apelando a valores que não praticam – a não ser na retórica – diversos líderes deste naipe recorrem a uma pregação contaminada de mentiras, recheada de falsos inimigos que, supostamente, pretenderiam acabar com a liberdade religiosa e, em especial, assustam os menos esclarecidos com o fantasma do comunismo, esquecendo-se de que, na verdade, a Liberdade de Cultos passou a ser constitucionalmente garantida graças a uma emenda à Constituição de 1946, de autoria do deputado Jorge Amado, eleito pelo PCB.

Oficialmente, no 7 de setembro comemora-se a Liberdade Nacional, a libertação da colônia em relação à metrópole; no 13 de maio, a libertação dos escravos; e o 7 de janeiro é o Dia da Liberdade de Cultos, cuja importância foi ratificada legalmente assim: “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa, convicção filosófica ou política”.

Por ocasião da aprovação do texto, o também deputado Carlos Marighella, afirmou: “nós, comunistas, sabemos respeitar as religiões; somos pela liberdade completa de consciência e não desejamos, de forma alguma, que essa liberdade seja utilizada pelos dominadores, pelos fascistas, pelos reacionários, pelos senhores feudais para acorrentar o nosso povo, miseravelmente, como o tem feito”.

Há um método de comunicação não violenta conhecido como ‘GIVN’, que tem sido aplicado em diversas instituições de ensino e empresariais, baseado em alguns aspectos aos quais devemos estar atentos antes de proferir qualquer palavra:

1) Ela será Gentil? / 2) Inspiradora? / 3) Verdadeira / 4) Necessária?

            Pois bem: 1) não me parece gentil que alguém diga a uma legião de famintos que não há problema se no país que ele vive alguns possam comprar fuzis e outros não possam comprar feijão. 2) O que disser elevará a autoestima ou motivará positivamente quem ouve? 3) Dizer que vacinar-se contra uma doença mortal é coisa de ‘maricas’, seria verdadeiro, seria cristão? 4) Seria necessário divulgar notícias falsas e disseminar ignorância e preconceitos, quando o mais correto é educar e prevenir?

Para concluir, então, é preciso dizer que muitos que usam da palavra pelo poder que lhes foi concedido através do voto, deveriam ser mais cuidadosos ao abrirem a boca, sob o risco de transformarem a personagem Magda, num exemplo de salomônica sabedoria, pois o “Deus acima de todos” que pregam é um deus hostil e belicista, e não o Deus do Novo Testamento, que deve ser “amado sobre todas as coisas”, mas que está sempre presente e ao lado de todos.