BROTAÇÕES

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TEXTO – LUIS BOGO

Não existe nada sem medida, nem o infinito, pois mesmo o universo, caso não continue a se expandir, em algum momento será finito. Tudo o que existe, existe porque algum dia brotou, mesmo não sendo semente vegetal em sua origem.

Assim são os rios, cujas águas brotam de olhos na terra e juntam-se e avolumam-se até chegarem à foz: morredouro que faz brotar o mar. Todo o céu, que floresce em planetas, asteroides, em estrelas e luminares, surgiu da grande explosão, que não se sabe ao certo de onde brotou.

A flor brota de um botão que, por sua vez, brotou de verde broto. Na escola se aprende que feijão brota até mesmo em algodão. A dor brota da ferida no corpo, na pele. Quando brota na alma, dizem a canção e a psicologia, que não se deve “esconder a dor”, mas “mergulhar na terapia”.

Tudo, tudo, tudo o que existe, existe porque brotou. O automóvel brotou de uma prancheta, sobre a qual percorreram lápis, pincéis e canetas que também brotaram de criativas e inventivas ideias, lembrando que a ideia de se utilizar a roda para facilitar o transporte e mover outros equipamentos, provavelmente brotou do tronco de uma árvore que rolou montanha abaixo esmagando seus mais tenros brotos.

Sonhos e desejos brotam diante de vitrines ou entre prateleiras. Os primeiros sonhos de toda criança são extremamente materialistas e suas recompensas óbvias serão em brinquedos e guloseimas, mas aos poucos tudo se transforma para que brote a necessidade de se receber palavras agradáveis, bons perfumes e afagos. Assim, sensações e sentimentos brotam e se manifestam nos terrenos do coração, da pele, do ouvido ou da retina para contrair ou dilatar nossos vasos e pupilas.

O medo pode brotar de um pesadelo e as aparições do fantasma da solidão podem assombrar os sonhos; mesmo que, depois, pela manhã e diante do espelho, tente-se disfarçar com um sorriso a inegável revelação de que a solidão é real.

Por sua vez, a paixão é um produto que também brota em prateleira, mas sem qualquer garantia, e pode ludibriar o imaginário com seus truques toscos e caros. E se da paixão brotar o amor é preciso cuidar para que ele não se torne um sentimento opressivo ou instrumento de opressão.

Somos organismos vivos participando de um organismo maior, onde tudo brota e floresce ou fenece. E amar é a verdadeira recompensa de existir.

O fundamental, meu amor, é saber que sentir coisas novas brotando na íntima substância, na delicada gelatina que chamamos alma é diferente de ver um feijãozinho brotar no chumaço de algodão.