BREVE CONTO SOBRE AS CIDADES

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TEXTO LUIS BOGO

Por mais que desenrolasse cartas marítimas e geográficas, por mais que investigasse mapas estelares, que investigasse seu lar de origem e sua ancestralidade no fundo do céu do seu mapa astral, sentia-se impotente para encontrar a cidade que supunha ser a sua, aquela que o acolheria com ternura até o fim dos seus dias.

“Cidade”, pensava ele, palavra que deriva do latim civitas, que supõe cives; ou seja, o ser que nela habita, mas que na maioria das vezes não sabe exatamente qual é o seu lugar em meio aos tantos e tontos sons, imagens, cheiros e ventos que lhe aguçam os sentidos. E observando mapas reais, continuava sua viagem imaginária, sem saber em que cidade pousariam suas lembranças ou seus sonhos…

Que a memória restitua, os passos e a praia, a face e o lugar de encontro”, escreveu W. H. Auden em Relato de um Certo Oriente. Talvez e muito provavelmente esta restituição (ou restauração) fosse-lhe impraticável no sentido físico e material; mas não impossível, posto que o imaginário é capaz de recriar o que ainda não é nascido.

A cidade pode ser origem. Pode ser destino. Pode ser ponto de passagem, de paragem… uma simples bolinha, marcada com alfinete no mapa da vida, assinalando onde o coração encalhou. Para citá-la como origem, Guimarães Rosa dizia, através de Manuelzão, em Grandes Sertões: Veredas:Sou donde eu nasci. Sou de outros lugares. Situando-a como destino, encontramo-nos com Manuel Bandeira a anunciar, onírico e zombeteiro: “Vou-me embora pra Pasárgada // Lá sou amigo do Rei // Lá tenho a mulher que quero // Na cama que escolherei”.

Pode ser construída em pedra e permanecer espremida e emparedada entre os muros da fortaleza que a protege. Ou surgir plana e aberta, como um oásis a flutuar em meio a amplidão do deserto. Pode estar encravada entre as selvas e as montanhas da América, como a mítica Eldorado; ou pode estar submersa, tal Atlântida, tragada que foi em apenas um dia e uma noite, pela olímpica fúria dos deuses, irados com a degeneração dos costumes de seus habitantes.

Ao olhar para o céu imaginava o que poderia existir em cada uma daquelas esferas, sabendo, de antemão, que em nenhuma delas encontraria o seu real destino. No íntimo, idealizava uma cidade predominantemente branca: branca como são brancas as noivas e as uvas dos vinhos mais frescos. Sonhava uma cidade vestida de branco, coberta pela cúpula azul do céu e banhada pelos doces sais do mar.

Porém, por mais que se fatigasse percorrendo mapas e roteiros com os olhos, no íntimo sabia que a cidade procurada não lhe seria indicada pelos livros de geografia ou pelos planos de navegação. Durante as madrugadas, em exercícios peripatéticos, caminhava em círculos pela biblioteca, arriscando-se, volta e meia, a circular até a varanda. E, em noites de lua cheia, arriscava-se até a rua, inalando o aroma dos eucaliptos até sentir-se suficientemente cansado para retornar ao seu quarto e adormecer.

Certa vez, após terminar mais um destes passeios, mas ainda insone, debruçou-se à janela aguardando ouvir novamente, como acontecia com frequência, o suave som de maçã madura a despencar sobre a grama alta. Mas o silêncio reinava absoluto.

Com os cotovelos simetricamente colocados no parapeito, queixo com a barba por fazer repousado na palma da mão, narinas infladas pelo ar úmido, sinapses inconclusivas e o olhar vagando pelo vazio que se formara entre as lentes de seus óculos e a linha do horizonte, percebeu que, de repente, em meio a uma nebulosa, a cidade que tanto buscara nas páginas de jornais e de academias se aproximava lenta e sem alarde. Apressou-se até a varanda, até que o grande pórtico da cidade flutuante, que ostentava, esculpida em madeira nobre, a inscrição “Hic vos mos reperio quis vos es vultus parumper”, colou-se ao chão de seu jardim e se abriu.

Um tanto atordoado, mas sentindo-se impulsionado por doses extras de adrenalina, evitou olhar para a casa que por tantos anos habitara e que estava deixando para trás. Embora não soubesse Latim, tinha certeza que aquela placa lhe dizia: Aqui encontrarás o que procuras”.

Ao pisar pela primeira vez naquela cidade que sabia ser só sua, sentiu-se como se tomasse posse da ilha mais preciosa de todos os sete mares. Logo ao entrar, percebeu o balé colorido das flores e uma rapsódia entoada por alegres pássaros. Águas límpidas se chocavam com as pedras do regato e da superfície dos montes brotavam cristais e brilhantes.

Surpreso e ainda atônito, sentou-se em uma pedra e pôs-se a meditar sobre o significado daquela descoberta, posto que ele jamais procurara a riqueza, mas apenas licores que curassem a incompletude de sua alma e toques sutis e delicados que lhe confortassem o cansado corpo.

Fechou os olhos a meditar, e quando supôs questionar se realmente encontrara exatamente o que tanto procurou, sentiu mãos delicadas acariciando sua fronte. Abriu os olhos lentamente e vislumbrou um cândido rosto muito branco, adornado por cabelos longos, negros, e um olhar doce como jabuticaba e leve como pitanga a dizer-lhe, em língua que só os anjos falam: “– Você encontrou a cidade que procurava”.