AS MARCAS® DESTA DATA QUERIDA!

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TEXTO – LUIS BOGO ESCRITOR,POETA E COLUNISTA

Neste momento em que estou prestes a inaugurar o último ciclo da minha 6ª. década de vida, iniciada em 14/12/1962, não poderia deixar de agradecer a todos os que participaram da minha trajetória, que me acompanharam em dúzias de passos e em alguns tropeços.

Aniversário não deveria ser coisa a ser propagada assim, mas quero deixar registradas aqui algumas das marcas que adquiri durante este longo período, além das rugas, é claro. Antes de mais nada, agradeço aos meus pais Anita e Benito, que já partiram, mas sem os quais estas linhas não seriam escritas.

Foram eles que me deram um ninho aconchegante a as primeiras mamadeiras de Ninho®, assim como me apresentaram à família Johnson, pois eram os alfinetes de segurança da Johnson & Johnson® que prendiam minhas fraldas de algodão Santista®, pois as descartáveis da Pampers®, que meus filhos usaram, surgiram no Brasil quando eu já não precisava delas.

Mais tarde, antes mesmo que os dentes-de-leite caíssem e fossem para debaixo do travesseiro até se transformarem em dinheiro, fui apresentado aos gratos sabores das balas Juquinha®, das gomas Jujuquinha®, do Mentex®, das pastilhas de hortelã e dadinhos de amendoim Garoto®, dos drops Dulcora®, Fruittella® e Paquera®; dos chicletes de bola Ping-Pong® e mini chicletes Adams®.

O Prestígio® e o Sonho de Valsa® já estavam na pista quando eu comecei a dançar, mas vi surgirem Chokito® e toda a gama da Nestlé® antes mesmo que a guerra entre a Pepsi® e a Coca-Cola® tomasse a proporção que tomou, pois na minha tenra infância o mais comum e barato era consumirmos a Tubaína® que eu ia comprar na adega do Ruggero, na Av. Itaberaba, lá na Freguesia do Ó; enquanto Crush® era, até então, apenas uma concorrente da alaranjada Fanta®.

Nesta aventura de aproximadamente 300 metros entre a porta de casa e a tal adega, via desfilarem fuscas, gordinis, jeeps. kombis, velhos caminhões de entregas da Chevrolet®, alguns DKWs a esfumaçarem o ar com a queima do óleo 2 tempos, e um ou outro Aero-Willys ou Simca-Chambord, na época carros “de rico”, raros naquela periferia.

Meu pai ainda era obrigado a ministrar suas aulas vestindo terno e gravata, geralmente da Ducal®,protegidos por imaculado guarda-pó engomado com Anil Imperial Colman® e sapatos engraxados com Nugget®, tarefas que minha dedicada mãe acabava por cumprir, posto que ele saia de casa para dar a primeira de suas 14 aulas diárias antes das 6h da manhã. Isto ela fazia quando não estava a lustrar as tábuas da sala com Parketina®, a cera que “por onde passa brilha”.

“– Óh, céus, óh vida, óh azar” – bem que poderia reclamar, citando a hiena do desenho animado que assistíamos juntos na velha Telefunken®, nos raros intervalos em que ela podia respirar um pouco. Mas não reclamava e o professor, reconhecendo seu esforço, sempre lhe trazia caixas de bombons Serenata de Amor® e buquês de crisântemos comprados na Floricultura Nossa Senhora do Ó, na Rua Javorahu.

Naquele tempo em que todas as geladeiras eram brancas e todos os telefones – que ainda não tínhamos em casa – eram pretos, todas as TVs transmitiam apenas em preto e branco. E era assim que, nas tardes de domingo, enquanto meu pai relaxava tentando recuperar as horas de sono que não teve de segunda a sábado, eu e ela assistíamos aos programas do Chacrinha, da Jovem Guarda e aos Monkees, que tanto divertiam com seus episódios cômicos exibidos pela TV Excelsior.

O tempo foi passando. Para a Copa do Mundo de 1974, quando a seleção canarinho foi massacrada pela laranja mecânica de Cruyff, já tínhamos uma Sharp® 20 polegadas, que só não mostrou mais cores do que aquelas que minhas lágrimas iridescentes derramaram sobre o meu rosto após o 0 x 2. Mas eu preferia assistir ao Futebol na Telefunken 32”, que havia na casa do meu padrinho Nelson

Nesta época, eu e meus irmãos Pilo e Marcos, já tínhamos a Caloi® que nossos pais não esqueceram de nos dar no Natal. Também já não tomávamos o Ninho® pela manhã, mas o café Seleto® que a mamãe preparava com todo o carinho. Na padaria já se podia encontrar a deliciosa e fofinha Ana Maria®, da Bimbo®.

Em fevereiro de 1977, tornei-me estafeta na TV 2 Cultura de São Paulo, onde fiz amigos que guardo no coração até hoje. Graças a este primeiro emprego, comprei minha primeira HONDA®, com a qual ia tirar onda na Praça do Relógio, na USP.

Na TV Cultura, conheci a redação de onde Vladimir Herzog fora sequestrado pelos militares e levado para a morte pouco mais de um ano antes. Foi lá, também, que me apaixonei de vez pelas letras e pelo jornalismo.

(Aqui, insiro pequeno parênteses de juvenil sensualidade, pois mesmo quem nunca usou se lembrará da propaganda da Valisere®, veiculada naquela época. Pois é: o primeiro sutiã a gente nunca esquece!).

Em 1978, quando os milicos argentinos subornaram os jogadores peruanos para tirar o Brasil da Copa, o tubo da Sharp® já se mostrava cansado e meus olhos já haviam aprendido a chorar apenas por questões mais relevantes que um placar de futebol. Então, me rebelei e chorei pelos mortos das ditaduras daqui e de lá.

Foi nesta época que passei a caminhar com Johnnie® e com George & Son®, com os quais tive alguns tropeços, confesso. Não virei cowboy, pois vivia caindo daquele White Horse® que já devia ter bem uns 8 anos, mas estou na terra de Marlboro® desde então.

Vieram duas faculdades que não concluí, e em 1986, quando já estava trabalhava com Massao Ohno Editor e de mudança para o Rio de Janeiro, lancei meu primeiro livro de poemas: Na Direção Exata. Nesta época, quase que semanalmente eu ia aos céus pelas asas dos Electras da Varig® que serviam à ponte-aérea.

Desde então, vivi e me alegrei em algumas cidades de belíssimos horizontes e nas sete colinas de Lisboa. Foram muitas outras, mas cito apenas os lugares onde fui mais feliz. Vieram Lourenço e Olívia, hoje morando tão distantes, mas ainda pedaços de mim. Retornando a Santa Catarina, terra de meus pais, me habituei a dizer “Buon Giorno” ou “Guten Morgen”. E voltei a comer polenta feita com fubá e não com Polentina®.

São quase 60 anos completados neste louco picadeiro, respeitável público. E, como dizia aquela moça do anúncio do shampoo Colorama®, “– minha voz continua a mesma, mas os meus cabelos, quanta diferença”… – Estão ficando lindos e branquinhos, mesmo porque nunca me seduziu a ideia de usar Loção Grecin®.

Citar todos os livros, filmes, discos e pessoas importantes para mim tornaria esta crônica tão enfadonha quanto um testamento. Então, lembrando Neruda, “Confesso que Vivi”, e que também amei, chorei, sorri, sofri e hoje comemoro o fato de estar calejado e relativamente imune a sentimentos ruins. E, principalmente, celebro ainda estar respirando, enxergando e saboreando tudo o que este mundo bom nos oferece.

Para concluir: em “Crônica de Um Amor Louco”, o personagem Charles Serking afirma que “os fracassados são as pessoas mais verdadeiras deste mundo”. A esta máxima, acrescento a observação verdadeira de que estou feliz, pois nunca permiti que o fracasso me subisse à cabeça: minha marca registrada™.

E, depois de lembrar destas marcas que tanto me marcaram, desde a primeira Olivetti Lettera 32® que dedilhei, quero apenas saber a qual PROCON reclamo aquela costela que me arrancaram e nunca mais restituíram…