ANSIEDADE

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 “Não se mate, oh não se mate,// reserve-se todo para // as bodas que ninguém sabe // quando virão, // se é que virão.” (Carlos Drummond de Andrade)

TEXTO - LUIS BOGO ESCRITOR /POETA

Não se preocupe. Não quero ocupar seu tempo falando de suores, falta de ar, taquicardia, tremores ou distúrbios digestivos. Não quero que você desenvolva alergias ou outras patologias só porque eu resolvi encarar este tema tão recorrente no momento em que o mundo inteiro se mascara e ficamos ansiosos pelo instante de podermos, novamente, contemplar os rostos e seus sorrisos. A ansiedade que merece atenção terapêutica é apenas aquela gerada por uma ou várias preocupações ou por expectativas excessivas e desproporcionais, que podem afetar negativamente o convívio social em todos os níveis, desde o familiar até o profissional. Não falaremos dela.

Não queremos, aqui, falar de preocupações intensas, tensões constantes ou outras situações que interfiram de forma ruim nas nossas vidas. A intenção, neste texto, é falar da ansiedade natural e saudável, boa e gostosa de sentir, como um ovo de chocolate aguardado e depois encontrado atrás do sofá num domingo de Páscoa. Ansiedade boa é chegar à véspera de Natal com a certeza de que no dia seguinte os presentes prometidos estarão na meia pendurada na janela, pois as renas já decolaram da Lapônia. E, ainda, é acreditar que o Papai Noel não ficará entalado na chaminé ao tentar pousar os embrulhos na lareira.

A ansiedade boa não é a expectativa de um milagre, mas a esperança de confirmação de uma possibilidade aventada: a doce aflição de esperar o que é certo acontecer. E esta doce aflição pode ser traduzida como aquela pressa que parece fazer o coração grudar no calendário ou se mover aos pulos, acompanhando o ponteiro do relógio que salta de segundo a segundo.

Ansiedade boa é sentir às seis da manhã o aroma do assado que será servido ao meio-dia; é saber que o encontro agendado para quinta-feira já caminha em passo manso na noite de quarta. A ansiedade prazerosa é aquela que nos faz gozar a delícia da espera, perceber os detalhes e a evolução da obra a cada tijolo colocado no alicerce ou a cada pérola adicionada ao colar.

Para nós humanos, que poderíamos ser definidos como verdadeiras ilhas de boas intenções cercadas de falhas por todos os lados, é tarefa complicada controlar as emoções, posto que elas podem brotar a partir dos mais diversos estímulos, e talvez nos seja mais fácil adestrar um cavalo do que amansar o coração quando ele se põe aos pinotes de ansiedade.

Controlar a ansiedade é questão de sabedoria: não se trata de tornar-se insensível, mas de preparar-se para bem receber o bem que há de vir.