Análise: com muitas faltas e sem opções a Benite, Brasil desaparece contra a Alemanha

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Acúmulo de faltas logo no início compromete estratégia ofensiva e expõe ausência de um desafogo além do cestinha. Treze anos depois de Nowitzki, Mo Wagner faz a diferença para os alemães ,Era de fato ilusão. O basquete cerebral e completo apresentado pela seleção brasileira nos três primeiros jogos do Pré-Olímpico de basquete em Split, na Croácia, sumiu neste domingo, na decisão da vaga olímpica. Deu tudo errado para o Brasil, que perdeu para a Alemanha por 75 a 64. Houve pouca variação de estilos, muito nervosismo e um ala-pivô louro com experiência na NBA que acabou com nossa defesa. Mo Wagner está longe de ser Dirk Nowitzki, o aposentado craque alemão, mas fez a diferença neste domingo.

O primeiro fator que explica a derrota do Brasil foi a quantidade de faltas que a equipe cometeu. Os principais marcadores brasileiros – Alex Garcia, Rafael Hettsheimeir e Bruno Caboclo – ficaram pendurados cedo, o que forçou o técnico Aleksandar Petrovic a lançar ainda no primeiro quarto reservas que não mantiveram o mesmo nível na defesa.

Isso também atrapalhou toda uma estratégia de jogar através do poste baixo, com Alex e Hettsheimeir de costas para a cesta. A escalação com Rafael Luz na armação e Vitor Benite ao seu lado trazia menos jogo de pick-n-roll (bloqueio alto do pivô para o armador) e supunha que Benite atacaria através de bloqueios nos lados, que gerariam ou um chute livre para ele, Luz e Caboclo, ou oportunidades perto da cesta para Alex e Hett.

Quando Alex, Luz e Hett se sentaram ainda no primeiro quarto, a defesa alemã pôde focar mais em Benite. O ala-armador não saía de um bloqueio sem um pivô ou ala alemão entrar em seu caminho. Isso resultou em erros e na pior atuação do cestinha no campeonato. Ele só marcou nove pontos, com um aproveitamento pífio de três cestas em 18 arremessos.

Quando Vitor Benite passa por Maodo Lo, dois jogadores fecham em cima dele no garrafão — Foto: Reprodução

Quando Vitor Benite passa por Maodo Lo, dois jogadores fecham em cima dele no garrafão — Foto: Reprodução

Com Benite bem marcado, não houve quem desafogasse o ataque brasileiro. Faltou variação e a seleção insistiu em vão em tentar livrar o ala-armador, que não estava em bom dia. Anderson Varejão foi o melhor jogador ofensivo do Brasil, com 14 pontos em 100% de aproveitamento nos chutes de 2, mas foi pouco explorado no pick-n-roll e embaixo da cesta. Assim como a defesa brasileira, a defesa alemã fechava a infiltração com os pivôs ocupando o espaço na entrada do garrafão, principalmente Robin Benzing e Mo Wagner.

Pivôs alemães formam parede para impedir a infiltração de Yago e o passe para Varejão — Foto: Reprodução

Pivôs alemães formam parede para impedir a infiltração de Yago e o passe para Varejão — Foto: Reprodução

Ah, Wagner. Este foi outro fator que explica a derrota. Se há 13 anos foi Dirk Nowitzki quem eliminou o Brasil no Pré-Olímpico de Atenas, neste domingo foi este outro ala-pivô alemão capaz de chutar de fora e bater para dentro quem esteve imparável para a defesa brasileira. A seleção até parou bem a infiltração e limitou os alemães a um aproveitamento medíocre nos chutes de 3, mas não teve respostas para o jogador do Orlando Magic. Wagner teve 28 pontos, incluindo três cestas de 3, e passou por cima mesmo quando Caboclo e Alex tentaram dobrar em cima dele.

Wagner mais uma vez trabalha bem dentro do garrafão e anota dois na largadinha.

Wagner mais uma vez trabalha bem dentro do garrafão e anota dois na largadinha.

Foi com uma sequência de cestas de Wagner que os alemães abriram 11 pontos de vantagem na reta final do segundo período. Ali, o Brasil se encontrou em seu primeiro momento de real dificuldade no Pré-Olímpico. Precisando de uma reação, Petrovic lançou Yago, que talvez tivesse entrado mais cedo se Huertas estivesse no time titular. Com o baixinho em quadra, a seleção teve seu melhor momento no jogo e encostou em dois pontos.

Ele trouxe a agressividade que o Brasil precisava na infiltração, algo que faltou no primeiro tempo, em que a equipe não teve lances livres. Mas foi pouco: a seleção teve apenas nove lances livres no jogo inteiro, enquanto cedeu 24 oportunidades na linha. O 18 a 7 dos alemães em lances livres convertidos foi exatamente a diferença de pontos entre os dois na partida. Os brasileiros lutaram e se mantiveram por perto no quarto período, mas as faltas ofensivas – olha elas de novo – impediram que se aproveitassem das vezes em que forçaram erros dos alemães. Depois que Alex foi eliminado com cinco faltas, a 3m36s do fim, uma diferença de seis pontos logo voltou a 11, e o jogo foi definido.

Mais uma vez que o torcedor brasileiro “se iludiu” com a seleção de basquete, que não repetiu na hora H as grandes atuações das fases preliminares. A visão com o “copo meio cheio” é que a geração anterior também sofreu eliminações em pré-olímpicos antes de engrenar no ciclo que levou a Londres 2012 – aquela eliminação em 2008 contra a mesma Alemanha foi a última.

Anderson Varejão, Alex e Huertas provavelmente não seguirão no próximo ciclo, mas o time ganhou corpo com Bruno Caboclo, Yago e Léo Meindl, e ainda viu bons momentos de Georginho e Lucas Mariano. Rafa Luz e Vitor Benite ainda têm idade para jogar até Paris 2024, e quem sabe Didi, Raulzinho e Gui Santos, que pediram dispensa este ano por questões pessoais, possam se juntar a eles nas próximas competições. Aí, a ilusão pode, enfim, se tornar realidade.

TEXTO - Adriano Albuquerque/GE OLIMPÍADAS