A RESPEITO DA POLÍTICA

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Antes de começar a discorrer sobre a situação conjuntural, julgo necessário fazer uma breve consideração sobre a palavra “política” e seu significado original. O termo tem origem no grego arcaico “politeia”, determinando tudo o que era relativo à “pólis”; ou seja, à cidade. Assim, o político era aquele que zelava pela cidade e pelos seus cidadãos, dedicando seu tempo e saber – de forma altruísta – a criar estatutos que permitissem melhor organização social e consequente bem-estar aos habitantes do lugar.

            As cidades cresceram e várias forma de governo e gestão pública se desenvolveram ao longo da História, o que acabou tornando a administração pública e “o fazer político”, em todas as suas esferas, uma profissão.

Em sua essência, o político seria um cidadão comum disposto a colocar em segundo plano os seus interesses individuais em favor do interesse coletivo. Como qualquer trabalhador, nada mais justo que ele passasse a receber alguma remuneração pelo tempo dedicado ao bem-comum. E, para que o sistema social funcionasse de forma justa, contemplando a todos os habitantes da “polis” de maneira equânime, todos os cidadãos deveriam se transformar em seres políticos, de forma a escolherem com sabedoria os seus representantes e com autoridade para fiscalizarem suas ações.

Assim, não podemos ser reducionistas e atribuir ao político profissional todas as mazelas do mundo, pois somos nós que decidimos quais pessoas irão administrar nossos bens comuns.

Como seres políticos, precisamos entender que o político profissional precisa ter renda suficiente para o seu pão de cada dia (e também para o leite e a manteiga), afinal ele exerce sua função para nos servir. Da mesma forma, precisam ter renda compatível o professor, o gari, o cozinheiro, o médico, o motorista e o pedreiro, pois são todos cidadãos e merecem usufruir das mesmas condições de sobrevivência e bem-estar.

Isto deve estar bem claro em nossas mentes, pois temos o direito e devemos nos rebelar quando o político não cumpre o seu papel, deixando de comprar gêneros necessários à população como, por exemplo, vacinas, insumos e remédios eficazes a combater determinada doença. Somos nós que devemos nos rebelar quando, ao invés do pão de cada dia, o político decide comprar, além do seu próprio pão, uma mansão em ilha paradisíaca, iate ou avião usando dinheiro que não é dele. Somos nós que devemos cobrá-lo se supre de caviar as despensas de suas casernas e deixa de comprar oxigênio para os hospitais. Então, antes de reclamarmos dos maus políticos, devemos assumir a postura-cidadã de sempre agirmos politicamente, seja qual for a nossa função ou profissão. E a melhor forma de se rebelar, além de “colocar a boca no trombone”, é votar com consciência.

Quando o professor educa adequadamente, transmitindo, além de conhecimento, conceitos de cidadania, ética, respeito ao homem e à natureza, está agindo politicamente. Quando o médico atende de igual maneira o rico e o pobre, curando-os e orientando-os sobre hábitos saudáveis, está agindo politicamente. Quando não atiramos lixo na rua para que o gari tenha que recolhê-lo depois, estamos agindo como cidadãos e poupando o nosso próprio dinheiro, que não precisará ser gasto no desassoreamento de rios e redes de esgoto.

Ser político não é se filiar a um partido, exercer função pública ou participar como candidato em uma eleição. Ser político é ter consciência do valor das coisas e, principalmente do valor do ser humano, de cada ser humano.

Ser político é dar valor à vida. É respeitar o próximo e a vida do próximo. É entender que a política tem diversas derivações, além da eleitoral: política econômica, ambiental, sanitária, educacional, assistencial etc. Ser político é ser solidário, honesto, desprendido, trabalhador dedicado e ético.

Um exemplo emblemático sobre atuação política nos foi dado há poucos dias pela médica-infectologista e mestre em saúde pública pela Universidade John Hopkins, Luana Araújo, convidada a depor na CPI da Covid. Mantendo uma postura técnica, baseada apenas na ciência e na ética, e declarando-se avessa à ideia de assumir algum cargo público, ela nos deu uma verdadeira aula de cidadania, ensinando-nos muito sobre política.

Dias após seu depoimento aos congressistas, ela fez algumas afirmações ao site “Universa”, do portal UOL, que julgamos conveniente reproduzir aqui: “Meu papel é lidar com políticas públicas, não me interessa quem está no poder. (…) É extremamente importante que as pessoas estejam informadas e desenvolvam o senso crítico. Em uma pandemia, os atores mais importantes não são médicos ou cientistas, são as pessoas. Eu posso falar o que eu quiser, mas se as pessoas não usarem máscara, não vamos a lugar nenhum. A ignorância, no sentido de falta de informação, é letal”.

Acredito que estas declarações sintetizam bem a ideia de que não é necessário ser um político profissional para ter uma atuação cidadã exemplar, uma atuação política enérgica, eficaz e ética. Façamos a nossa parte.

TEXTO - LUIS BOGO ESCRITOR E POETA