A RESPEITO DA GANÂNCIA

POR LUÍS BOGO, COLUNISTA, ESCRITOR E POETA

O tema é extenso, assunto para uma ou várias teses, mas como este espaço é exíguo, vamos, antes de mais nada, tentar esclarecer a diferença entre ganância e ambição.

É comum que estas palavras sejam erroneamente utilizadas com o mesmo sentido. Mas, de forma sucinta, enquanto a ambição é a busca da prosperidade, o desejo de ter uma vida tranquila e todas as necessidades satisfeitas, a ganância é a vontade desenfreada de possuir, mesmo que esta busca pelo bem material implique em desprezo e desrespeito ao próximo.

Tanto a ambição quanto a ganância são sentimentos gerados por insatisfações, mas enquanto o ambicioso trabalha e batalha pela construção, o ganancioso é movido pela vaidade, acúmulo e ostentação. Por uma felicidade externa, aparente e miseravelmente fugaz.

A ambição é aguda: aguçada e determinada motivação para plantar e colher no tempo propício, para desfrutar e compartilhar o resultado obtido. A ganância, ao contrário, é circunflexa, fechada, ególatra: confere ao sujeito um sentimento exacerbado de seu próprio valor, levando-o a ignorar o princípio da igualdade e fazendo-o acreditar ter mais direitos do que os outros.

Do sentido filosófico ao fabuloso ou do mítico ao religioso, ganância sempre será definida como um sentimento ruim, capaz de gerar ações perversas e resultados danosos. Em “A Galinha dos Ovos de Ouro”,  Esopo

retrata a ganância de um casal que, não satisfeito em ter ganhado uma galinha que lhes dava um ovo de ouro por dia, resolveu matá-la para ter todos os ovos de uma só vez, descobrindo, então, que não havia mais nada dentro dela.

            O termo ganância vem do espanhol “ganancia” – que significa lucro ou vantagem. Mas, a ânsia por ganhos extraordinários e exorbitantes, porém, não se restringe ao dinheiro. No primeiro livro do apóstolo Timóteo (6. 9-10) está escrito: “Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é raiz de todos os males”. Esta colocação nos deixa claro que a volúpia por dinheiro acende outros desejos que, se não forem controlados, podem nos tornar avarentos, impiedosos e egoístas.

            (As duas Guerras Mundiais foram provocadas por ganância. Na primeira, os países da Europa não entraram em acordo sobre a divisão das colônias africanas acordada na Conferência de Berlim. Derrotada nesta guerra, a Alemanha foi alvo de sanções no Tratado de Versalhes e, não podendo arcar com as penas impostas pelos gananciosos vencedores, entrou numa crise financeira que a levou à derrocada econômica e a uma nova reação bélica, iniciada em 1939 e encerrada com as bombas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945).

Após este longo parênteses, podemos concluir que buscar o melhor para si é sinal de ambição, mas não é sinal de ganância. Ganância é buscar a realização de vaidades atropelando princípios morais. É desrespeitar a ética e ignorar a compaixão.

Ser ganancioso é imaginar-se nadando na piscina de moedas do Tio Patinhas, pois a ganância é suja, inescrupulosa. Leva ao suborno e à corrupção. Por meras trinta moedas, o ganancioso é capaz de negociar de maneira ilícita e vender até mesmo o que não lhe pertence ou o que não conquistou: em tempos de calamidade, é capaz de vender a vaga no hospital e o oxigênio de respirar.

Ganância escraviza. Ganância crucifica.

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